Vera Azevedo Mendes
“You are privileged.” é a frase introdutória do livro The Politics of Design, de Ruben Pater. Nesta curta introdução o designer e escritor holandês dirige-se ao leitor com a intenção de pôr em perspectiva a sua posição no mundo: “Just reading this sentence makes you part of the 85% of the world population that is literate and the 20% that understands English. […] If you bought this book, you probably have a higher education, which is only available to a privileged few.” [1]
Aplicando estas afirmações à posição social e cultural do designer, o seu impacto torna-se ainda mais aparente. O designer, enquanto profissional e enquanto cidadão, desfruta de uma situação educada e informada. Para além deste privilégio inato, ocupa também uma posição de poder e de responsabilidade. O design tem consequências reais, culturais e sociais e deste modo a sua prática é inerentemente política e o dever do designer é de um carácter cívico.
Durante a sua carreira, Milton Glaser, designer do famoso logotipo da cidade de Nova Iorque “I Heart NY”, afirmava que o designer tinha apenas a responsabilidade de qualquer bom cidadão. Ao trabalhar no contexto da indústria, o designer deveria guiar-se pelos princípios básicos da cidadania, agindo em benefício do bem comum. No entanto, apesar da simplicidade da proposta, não é esta a atitude presente no horizonte da profissão.
Há muito que foi ultrapassado o momento descrito por Tony Fry, em que o design poderia optar por se tornar uma prática trivial, tecnocrática e invisível ou um modo de agir contra sistemas insustentáveis, com o objetivo de criar futuros viáveis.[2] Atualmente, num mundo marcado por divisões e tensões políticas e sociais, o design do quotidiano pretende ser inofensivo e passivo. A disciplina e os seus praticantes são pilares sustentadores das atuais estruturas de poder.
Podemos, em parte, associar este fenómeno à educação da prática e à sua herança modernista. A aspiração das décadas de 1950 e 1960 à universalidade e à neutralidade através da abstração apresenta-se muitas vezes como resposta infalível à complexidade do mundo. Baseia-se na crença de que o objeto de design pode e deve ser ideologicamente neutro, quando, na realidade, este é incapaz de se desconectar do contexto, valores e ideologia a partir do qual foi criado [3]. Katherine McCoy argumenta que esta abstração facilita o distanciamento entre o designer e a audiência, proporcionando um vocabulário seguro para uma mentalidade neutra, obediente e ao serviço da indústria [4]. A prevalência do ensino de ideais funcionalistas e do design apenas como ferramenta de problem-solving encorajam o designer a afastar-se das consequências do próprio trabalho.
Contrariamente à mentalidade modernista, nomeadamente nas universidades e na academia tem vindo a surgir uma tendência para a criticalidade. Esta trata-se de uma oposição contrastante entre o pragmatismo do modernismo e a “inutilidade” do design crítico e especulativo. Popularizados por Anthony Dunne e Fiona Raby e pelas suas propostas de futuros alternativos, estes termos introduzem uma nova dimensão à prática e à educação, com o objetivo de provocar, expor questões e suscitar o debate. No entanto, é difícil transpor estas ideias para além das elites e do privilégio académico. No seu quotidiano, o designer não imagina universos de ficção científica nem objetos sem função, mas pode orientar a sua prática imaginando futuros justos, baseados em noções de igualdade e solidariedade – “futures for the many, not for the few.” [5]


Designs for an Overpopulated Planet: Foragers. Dunne & Raby, 2009.
A noção de criticalidade, quando aplicada ao contexto social, cultural, económico e político em que os objetos de design são produzidos, torna-se a ferramenta necessária que permite ao designer agir de acordo com o civismo descrito por Milton Glaser. No artigo Power is Designed, Jessie McGuire frisa a importância da capacidade do designer de questionar o sistema dentro do qual opera de modo a desenhar sistemas éticos e transparentes.
Perante tudo que foi referido anteriormente, o privilégio do designer enquanto indivíduo educado deveria conferir-lhe a possibilidade de questionar e pensar criticamente sobre a sua prática, sobre quem esta serve e por que meios o faz. Esta condição deveria tornar o design numa disciplina capaz de agir perante o sistema em que se insere, de o questionar e de gerar mudança. Mas a realidade que observamos é muito diferente da utopia descrita até agora, apenas um grupo muito reduzido de designers reúne as condições económicas para ser crítico na sua profissão. Numa área saturada, com uma entrada difícil e um futuro incerto, cujos praticantes trabalham muitas vezes em condições precárias, é irrealista esperar que todos os designers sejam críticos e seletivos no trabalho em que participam.


Who Can Afford to be Critical? Afonso de Matos, 2023.
Num artigo para a revista DAMN, Afonso de Matos, autor do livro Who can Afford to be Critical?, afirma que falar do poder do design não é o mesmo do que falar do poder do designer. Exemplificando como as afirmações do “poder do design” e “todos temos de reciclar” se manifestam da mesma forma – “it strikes us with a double effect: it inflates our egos and fuels our hubris, while simultaneously setting the bar extremely high for the tasks that should be occupying us, in sharp contrast with the daily jobs which pay our bills.” Perante a dificuldade (e muitas vezes impossibilidade) do designer de ser crítico na sua profissão, o autor propõe que sejamos críticos, políticos e capazes de questionar o poder na nossa vida fora da profissão. Que nos identifiquemos mais como cidadãos do que como designers.
É inevitável continuar a questionar qual a posição que o designer deve adotar e quais as suas responsabilidades face ao seu privilégio e poder (e se este existe). Quando possível, a responsabilidade do designer é agir de forma cívica, não por ser designer, mas por ser cidadão. Sem negar o seu valor, quando os conceitos de criticalidade e de “poder do designer” parecem existir apenas no contexto académico, podemos questionar se a forma como são abordados nos afasta da realidade.
1 – Pater, R. (2016). The Politics of Design: A (Not So) Global Manual for Visual Communication. BIS Publishers.
2 – Fry, T. (2009). Design Futuring: Sustainability, Ethics and New Practice. Berg Publishers.
3 – Pater, R. (2016). The Politics of Design: A (Not So) Global Manual for Visual Communication. BIS Publishers.
4 – McCoy, K. (2018). Good Citizenship—Design as a Social and Political Force. In S. Heller, V. Vienne, Citizen Designer: Perspectives on Design Responsibility (Second Edition). Allworth Press.
5 – Pater, R. (2021). Caps Lock: How Capitalism Took Hold Of Graphic Design, And How To Escape From It. Valiz.
Leave a Reply