Por que é que os designers estão sempre a fazer projetos sobre design vernacular?
Vicente Romão
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, “vernacular” significa “próprio do país ou da região a que pertence; nacional, pátrio; que conserva a pureza original; sem estrangeirismos; genuíno, puro; língua própria de um país ou de uma região; idioma nacional”, mas quando aplicado ao design, parece ter um significado diferente, quase que oposto. Serve para definir objetos não próprios de uma certa prática de design, exteriores a ela.
Objetos puros, genuínos, intocados pelo design “profissional”, que conservam a “pureza original”, pré-design. Objetos a que o design (ainda) não chegou. Ementas escritas em toalhas de mesa de papel e coladas nas montras de restaurantes, cartazes desenhados à mão com fundos fluorescentes, afixados em mercearias ou talhos, ou panfletos de compra e venda de carros colocados nos seus para-brisas. Mas será que o “design propriamente dito” ainda não chegou a estes artefactos?

Figura 1 – A página de instagram “Arquivo do Design Não-Alinhado” (@arquivo.dna) reúne um conjunto de exemplos de “design vernacular”, principalmente cartazes encontrados na rua e em montras de lojas.
Cada vez mais se observa uma tendência de utilizar o “design vernacular” como “bengala” para criar discursos sobre design profissional vs. não-profissional, sustentados na premissa de que se está a “re-observar o design vernacular pela lente do design académico”. Independentemente da validez do argumento, a verdade é que a grande maioria destes “objetos de análise crítica do design amador” tomam formatos muito semelhantes entre si, que pouco ou nada acrescentam aos diálogos já existentes sobre design vernacular.
“If we are to view “Vernacular Design” in this same framework of language supremacy, it is arguable that it is similarly disregarded as “slang.” As design slang that develops outside of Eurocentric institutions, it lacks legitimacy until a “trained” designer “elevates” it by co-opting and appropriating parts of the vernacular into “trendy” good graphic design—slang stolen from the native. I must recognize that there are multiple definitions and understandings of this word. Working within the vernacular, outside established educational or cultural institutions, may grant a sense of empowerment and legitimacy to our work. However, we must carefully examine the etymology and subliminal meanings attached to the words and language that we use.” [1]
No artigo da Futuress A Rejection of the Term “Vernacular”, o designer filipino Javier Syquia afirma que o “design vernacular” só ganha legitimidade quando um designer profissional o “eleva”, apropriando-se de partes do vernacular e transformando-o em “good design”. Mas de que exemplos práticos estamos a falar? E será que são eticamente válidos como projetos de design? Quão válido é um projeto de design sobre “não-design” ou “design-menos-que”?
Por que é que o design vernacular é frequentemente desvalorizado como objeto válido de design (por não ser proveniente dos moldes académicos e profissionais, uma condição questionavelmente válida para caracterizar um objeto como design ou não), mas é muito frequentemente utilizado e performativamente celebrado sob o formato de objetos de design académico-profissional?
Em CÂ.NO.NE, uma publicação impressa em risografia realizada na Escola Superior de Arte e Design, em Matosinhos, no contexto académico, Diogo Matos materializa esta elevação do “design profissional” perante o “design vernacular” mencionada no artigo de Syquia. Ao reunir uma série de panfletos de carros e redesenhá-los profissionalmente de acordo com as correntes gráficas atuais, Matos formula um comentário crítico sobre as relações de aprendizagem mútua e não necessariamente combativas que podem ser criadas entre os dois tipos de design.

Figura 2 – Uma página do projeto “CÂ.NO.NE”, de Diogo Matos.
“Este exercício tem como principal objetivo a recolha de objectos impressos, criados e pensados por pessoas sem formação na área do design gráfico, para posteriormente criar um confronto entre aqueles que são os cânones estipulados pelos mestres, e as tendências seguidas actualmente nesta área, através do redesenho destes suportes gráficos.
Por vezes a quebra de regras pode ser o desbloquear daquilo que são as correntes gráficas e a criação de novas tendências ou fórmulas compositivas. Qual é o futuro do design: o cumprimento das regras, ou a quebra total das mesmas na procura de novas receitas e maneiras de fazer as coisas?” [2]
A página de Instagram da agenda cultural semanal “1 Tostão” (@umtostao_) formula outro exemplo de diálogo entre estas duas vertentes do design. Se por um lado requer posts semanais no formato de carrossel, por outro, qualquer pessoa com ou sem formação em design pode preencher um formulário presente na página e criar um destes posts semanais, o que resulta numa paisagem de exploração de linguagens gráficas diversas e ecléticas.

Figura 3 – Conjunto de posts de Instagram da agenda cultural semanal “1 Tostão”, onde é evidenciada a diversidade gráfica e temática e a experimentação. [3]
Num dos posts, por Manuel Cabral, a agenda cultural da semana toma a forma de uma série de panfletos de venda de carros fotografados em para-brisas de carros. Noutro post, por Maria Khadija, a programação de cada dia toma a forma de uma pancarta.

Figura 4 – Posts da agenda cultural “1 Tostão”, com design de Manuel Cabral e Maria Khadija, respetivamente.
Ambos os exemplos desconstroem as linguagens gráficas dos objetos originais e reinserem-nas, inesperadamente, noutros universos visuais. Mas esta reinserção não coloca em causa a legitimidade do objeto, talvez pela diversidade de linguagens presentes na página, que transmitem o seu papel como um lugar livre de experimentação e de quebra de regras, o que nos leva a colocar a mesma questão que Diogo Matos coloca no final da sua publicação, “CÂ.NO.NE”: o futuro do design passa pelo cumprimento das regras ou pela quebra das mesmas?
“Another challenge to opening up the scope of history beyond the profession is the potential for graphic design history to exploit diverse cultural practices by subsuming them under the logic of capitalism, the fount from which design professions spring. To borrow a phrase from theorist McKenzie Wark: there is culture and then there is the culture industry. Graphic designers practice in the latter but want to be taken seriously in the former. If by broadening history, the intent is to be inclusive, but the impact is only to co-opt vernacular graphics, uncanonized works, or overlooked global practices for commodity culture, then we haven’t done much to transform graphic design or its history.” [4]
No artigo We Need Graphic Design Histories That Look Beyond the Profession, patente no website AIGA Eye on Design, Aggie Toppins defende que devemos olhar para o design não apenas pela vertente profissional e mais como um objeto cultural, e talvez a solução para o problema proposto passe por aí.
O designer “profissional” deveria preocupar-se menos com a linha entre ele e o não-profissional, e talvez prestar mais atenção aos artefactos e narrativas que resultam de diálogos não combativos entre os dois lados.
“An either/or approach is frustrating. I prefer to think of what’s possible in the in-between. I think people think that the in-between is in the middle, but the in-between is its own place. It is at the edge of two or more different ecosystems that the most fecund biodiversity is found. This is where nature evolves, and perhaps so could we.” [5]
Palavras-chave
Design vernacular; design profissional; ética.
Notas
[1] Syquia, J. (2021, 15 de dezembro). A Rejection of the Term “Vernacular”. FUTURESS. https://futuress.org/stories/a-rejection-of-the-term-vernacular/
[2] Matos, D. (2021). CÂ.NO.NE. ESAD Matosinhos.
[3] A agenda cultural semanal “1 Tostão” partiu da iniciativa catalã “Cinc Cèntims” (@cincentims), uma agenda cultural semanal de eventos em Barcelona com uma linguagem gráfica semelhante. Na biografia da página de Instagram da “1 Tostão”, lê-se “prima de @cincentims”.
[4] Toppins, A. (2021, 10 de junho). We Need Graphic Design Histories That Look Beyond the Profession. AIGA Eye on Design. https://eyeondesign.aiga.org/we-need-graphic-design-histories-that-look-beyond-the-profession/
[5] Atkinson, R., Balaguer, C. (2021, 16 junho). Learning from the Vernacular. FUTURESS. https://futuress.org/stories/learning-from-the-vernacular/
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