José Henrique Dias

Szilveszter Makó, for Hero Magazine, 2023
O provérbio parece simples, mas ganha outro significado quando pensamos na forma como trabalhamos e criamos hoje. Estamos habituados a produzir, responder, publicar e passar imediatamente para a tarefa seguinte. No entanto, criar implica muitas vezes fazer precisamente o contrário: parar, observar, experimentar e aceitar que nem sempre sabemos onde vamos (ou queremos) chegar.
Venho da pintura e, durante o meu percurso na academia, habituei-me a trabalhar num espaço onde nem todos os exercícios precisavam de responder a um problema concreto ou de chegar a um resultado previamente definido. Havia tempo para experimentar, mudar de direção e falhar. Talvez por isso tenha começado a questionar o que acontece a esta relação com o processo quando saímos da escola e entramos no mercado de trabalho.
Não quero idealizar o contexto académico, nem assumir que a prática artística existe fora das condições económicas. Mas, ao ouvir e ler testemunhos de pessoas que trabalham em áreas criativas, fico com a sensação de que o tempo disponível para essa experimentação pode tornar-se cada vez mais reduzido. Quando existe um cliente, um prazo e um objetivo definido, o processo passa a estar condicionado por outras expectativas. O problema não é termos de produzir enquanto criamos. É quando a necessidade de produzir começa a determinar o que significa criar, quanto tempo podemos dedicar a isso e que valor atribuímos ao próprio processo
Guy Debord ajuda a pensar esta relação entre tempo e produção.
The time of production, time-as-commodity, is an infinite accumulation of equivalent intervals.1 (s.147)
O tempo deixa de ser apenas aquilo de que precisamos para fazer alguma coisa e passa a ser também uma unidade que pode ser medida, organizada e valorizada economicamente. Esta lógica não se limita ao trabalho industrial. Também atravessa as profissões criativas, onde a rapidez, a capacidade de resposta e a quantidade de trabalho produzido podem tornar-se critérios de valor.
Victor Papanek, por outro lado, chama a atenção para aquilo que deixamos de valorizar quando a produção e o consumo se tornam hábitos automáticos.
That which we throw away, we fail to value 2 (p. 97)
O autor fala-nos da relação entre descarte e valor. Embora se refira sobretudo à cultura material e ao design, esta ideia pode também ajudar-nos a pensar no que acontece ao próprio processo criativo quando passamos demasiado depressa de uma ideia para outra. O que não tem uma aplicação imediata corre o risco de ser tratado como tempo perdido.
Esta preocupação com o tempo também aparece em Jenny Odell. Em How to Do Nothing, a autora critica a forma como as plataformas comerciais chamam a nossa atenção e promovem uma ideia limitada de produtividade. Escreve:
I am opposed to the way that corporate platforms buy and sell our attention, as well as to designs and uses of technology that enshrine a narrow definition of productivity and ignore the local, the carnal, and the poetic.3 (p. 12)
O que me interessa nesta passagem é que Odell não está simplesmente a defender que devemos abandonar a tecnologia. Está a questionar a lógica que determina como a usamos e aquilo a que damos atenção. Talvez seja também aí que podemos encontrar espaço para recuperar uma relação mais próxima e menos automática com o ato de criar.

Bráulio Amado: process and poster for Good Room (Copyright © Bráulio Amado)
Um bom exemplo é o trabalho de Bráulio Amado. Numa entrevista à It’s Nice That, o designer fala sobre a importância de observar aquilo que normalmente ignoramos: as pequenas coisas do quotidiano. Descreve esta prática como uma forma de meditação, uma maneira de escapar ao excesso de informação e de estímulos que nos acompanha diariamente.4 A certa altura, explica também:
I try not to take too many because it becomes obsessive, and then it takes away the fun of walking around and admiring, you know. The whole point of this is I don’t want to be on my phone.5


Bráulio Amado: Good Room poster (Copyright © Bráulio Amado)
Gosto deste exemplo porque a observação não aparece como uma tarefa com um resultado garantido. É uma prática que alimenta o trabalho, mas que também tem valor por si própria. Bráulio refere ainda que tem a sorte de trabalhar com a Good Room, que lhe permite experimentar e encontrar um espaço para desenvolver essas experiências.6 É um detalhe importante: a liberdade criativa não depende apenas da vontade de quem cria. Depende também das condições de trabalho e da abertura de quem encomenda.

Szilveszter Makó for Interview, 2026
É precisamente essa questão que surge no testemunho do fotógrafo Szilveszter Makó, partilhado pela Diet Prada. Ao falar sobre a velocidade da indústria, diz:
I am a photographer, not Harry Potter. I cannot conjure an entirely new world every three months. I am one mind, moving at a human pace, and in a time when technology can produce something mesmerizing in seconds. 7
A frase é particularmente expressiva porque coloca em confronto duas velocidades: a da produção tecnológica e a do pensamento humano. Não se trata de negar as possibilidades da tecnologia, mas de reconhecer que a capacidade de produzir rapidamente não significa que o processo criativo possa, ou deva, acompanhar sempre esse ritmo.
Mas há aqui uma contradição que não podemos ignorar. Makó explica que os editoriais são o trabalho que mais lhe interessa, mas que muitas vezes não são remunerados. São projetos que paga com o próprio dinheiro e tempo, precisamente porque lhe permitem expressar-se com maior liberdade.8 A autonomia tem, portanto, um custo. Quem consegue dedicar tempo a projetos sem um cliente ou um retorno financeiro garantido? A autoria pode ser um objetivo, mas não podemos tratá-la como uma possibilidade que depende apenas da vontade individual.

Szilveszter Makó: Bauhaus Ballet, with The Cultivist and Capital One
Esta dificuldade torna-se ainda mais evidente quando pensamos na forma como a própria rebeldia pode ser absorvida pelo mercado. Vivienne Westwood, cuja prática começou por desafiar convenções da moda e da sociedade, resumiu essa contradição numa frase:
Society tolerates its rebels because it absorbs them into its consumer society. You become part of the marketing. Everything comes with a label. 9
Até aquilo que começa como uma crítica pode acabar transformado num produto, numa imagem ou numa identidade comercial. A liberdade criativa não está, por isso, automaticamente garantida pelo facto de trabalharmos de forma independente ou de procurarmos uma linguagem própria.

The maverick designer Vivienne Westwood pioneered the punk look in mid-1970s London, leaving a lasting impact on fashion and wider culture. (Getty Images)
Não podemos ignorar as condições em que trabalhamos, nem fingir que a prática criativa existe fora das estruturas económicas que a sustentam. Mas também não precisamos de aceitar que essas estruturas definam inteiramente a forma como criamos, o tempo que dedicamos ao processo ou aquilo que consideramos valioso. Preservar uma relação humana com a criação passa por defender espaços de atenção, experimentação e liberdade, mesmo quando são parciais, frágeis ou difíceis de manter. Isto não significa que todos os designers tenham as mesmas possibilidades de o fazer. Pelo contrário, reconhecer essa desigualdade torna o argumento mais honesto.
Talvez a questão não seja escolher entre criar livremente ou trabalhar dentro do mercado, mas perceber até que ponto conseguimos negociar com as suas exigências sem perder aquilo que nos levou a criar. Se a liberdade criativa é aquilo que procuramos preservar, como podemos evitar que ela própria se transforme numa mercadoria?
Bibliografia
(1) Papanek, V. (1973). Design for the real world: Human ecology and social change. Bantam Books.
(2) Debord, G. (1994). The society of the spectacle (D. Nicholson-Smith, Trans.). Zone Books. (Original work published 1967).
Texto consultado: https://www.sionline.researche-editions.cddc.vt.edu/si/tsots01.html
(3) Odell, J. (2019). How to do nothing: Resisting the attention economy. Melville House.
Excerto consultado: https://bpb-us-e2.wpmucdn.com/sites.middlebury.edu/dist/a/5353/files/2022/02/Jenny-Odell-How-to-Do-Nothing-excerpt-.pdf
(4, 5, 6) Brewer, J. (2026, October 26). Mistakes, chaos and meditation: Inside the mind of Bráulio Amado. It’s Nice That.
https://www.itsnicethat.com/features/braulio-amado-graphic-design-spotlight-261026
(7, 8) Diet Prada. (2026, October 30). [Publicação sobre Szilveszter Makó]. Instagram.
https://www.instagram.com/p/DfFmqVln-Qv/
(9) Wilson, E. (2022, December 29). Vivienne Westwood, priestess of punk, has died. The Business of Fashion.
https://www.businessoffashion.com/articles/luxury/vivienne-westwood-priestess-of-punk-has-died/
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