O design gráfico na construção do conhecimento
Teresa Dória
Existe algo de fascinante naquilo que uma imagem consegue comunicar. Muito mais do que simples palavras, uma imagem consegue transmitir emoções e ideias de forma rápida, deixando uma marca na sociedade. Talvez seja precisamente por isso que tenha conquistado um lugar tão importante no nosso quotidiano, estando presente em quase tudo aquilo que vemos e consumimos. Só quando parei para pensar nisto é que percebi o impacto que a escolha de uma cor, de uma tipografia ou de uma composição pode ter na educação da sociedade. Foi a partir desta reflexão que percebi que o design gráfico tem uma influência muito maior do que aquela que inicialmente lhe atribuímos, assumindo também um papel importante na forma como aprendemos e construímos conhecimento.
No contexto escolar, a imagem pode ser uma ferramenta essencial para facilitar a aprendizagem e a compreensão de determinados conteúdos. Quantos são os alunos que, tendo dificuldades na compreensão das palavras, conseguem compreender melhor uma ideia através de uma imagem? As composições visuais permitem transformar informações complexas em conteúdos mais acessíveis, ajudando a explicar, organizar e transmitir conhecimento. Através da utilização de diferentes elementos gráficos, o design consegue tornar a aprendizagem mais clara e apelativa. É por isso que acredito que deve ser visto como uma ferramenta fundamental na educação, não apenas como um complemento aos conteúdos escritos, mas como uma linguagem com capacidade própria para ensinar.

Infográfico «Bibliotecas Municipais 2017» (Cascais 2017 / Câmara Municipal de Cascais).
É neste sentido que considero que o design gráfico é muito mais do que aquilo a que habitualmente o associamos. É muitas vezes ligado à criação de identidades visuais, cartazes, livros, embalagens ou interfaces digitais, estando associado à produção de objetos apelativos, no entanto, é também a capacidade de organizar, traduzir e tornar a informação compreensível. Um designer não se limita a escolher composições, cores e tipografias; organiza todos estes elementos de forma a melhorar a compreensão de uma determinada ideia.
A relação entre o design e a educação é particularmente evidente no projeto Prelibri 1 , desenvolvido por Bruno Munari, um designer italiano que demonstrava um grande interesse pela aprendizagem e pela criatividade. Munari defendia que as crianças não deviam adquirir conhecimento apenas através das letras, mas também através da experimentação e da descoberta autónoma. Nesse sentido, criou uma coleção de livros destinada a crianças que ainda não sabiam ler, explorando diferentes cores, formas, texturas e materiais. Este projeto demonstrou a importância da imagem no processo educativo e revelou como o design gráfico pode ir muito além da sua função estética, sendo capaz de estimular o pensamento, desenvolver a criatividade e ensinar a interpretar o mundo de diferentes formas

Projeto «Prelibri» (1980) de Bruno Munari.
Mas o papel educativo do design não termina nas escolas ou nos espaços de aprendizagem formal. Existe também uma educação não formal, que acontece diariamente, muitas vezes sem nos apercebermos. Cartazes espalhados pelas ruas, campanhas publicitárias, exposições, livros ou até a comunicação presente nos espaços públicos são exemplos de como o design gráfico pode transmitir conhecimento e despertar a consciência da sociedade. Será que um bom cartaz consegue educar a sociedade? Acredito que sim. Uma campanha pode alertar para um problema, transmitir uma mensagem importante ou levar-nos a questionar determinados comportamentos. É precisamente aqui que reconheço a responsabilidade que um designer deve ter: independentemente do projeto em que está a trabalhar, deve ter consciência de que está a comunicar com um público e de que essa comunicação pode gerar questões, ideias e conhecimento.
Esta capacidade de transmitir conhecimento através da imagem leva-nos também à importância de desenvolver competências para compreender a linguagem visual. Donis A. Dondis, em A Primer of Visual Literacy (1973), procura explicar precisamente a importância de desenvolver uma literacia visual. Vejo esta perspetiva como algo muito interessante quando a comparamos com a quantidade de comunicação gráfica que consumimos diariamente. Se aprendemos a interpretar textos, porque não desenvolvemos igualmente a capacidade de interpretar as estruturas visuais que nos rodeiam. O design gráfico participa na construção da nossa cultura visual, mas nem sempre somos educados para reconhecer os seus códigos e compreender as suas intenções. Não basta estarmos constantemente rodeados de imagens; também precisamos de aprender a interpretá-las.

Páginas de «A Primer of Visual Literacy» (1973) de Donis A. Dondis.
No entanto, se o design tem esta capacidade de educar e influenciar a forma como vemos o mundo, também é importante refletir sobre a forma como está a ser utilizado. Ao pesquisar sobre este tema, compreendi o absurdo de algumas das formas como é utilizado nos dias de hoje. Campanhas que publicitam o ódio, e muitos outros problemas da nossa sociedade, continuam a ser desenvolvidas através da comunicação gráfica. Quando não existe uma reflexão sobre o impacto que estas imagens podem ter na educação da sociedade, o design torna-se também um instrumento de manipulação do conhecimento.
Esta influência torna-se particularmente evidente na forma como somos incentivados a consumir. Publicitam-se constantemente produtos de que não precisamos e que acabamos por comprar, muitas vezes devido à influência e à manipulação do pensamento através de uma campanha.
Apesar disso, já existem também diversas marcas que produzem campanhas nas quais abordam o consumismo como um problema. Um exemplo que considero particularmente interessante é a campanha Don’t Buy This Jacket2, desenvolvida pela marca Patagonia em 2011, durante a Black Friday. Numa altura em que a publicidade procura incentivar constantemente a compra de novos produtos, a marca decidiu utilizar uma mensagem aparentemente contraditória, apelando aos consumidores para que não comprassem o seu casaco. Através desta campanha, procurou alertar para as consequências ambientais do consumo excessivo e incentivar uma maior reflexão antes de cada compra.

Campanha «Don’t Buy This Jacket» (2011) da marca Patagonia.
São exemplos como este que mostram o poder que o design tem na educação da sociedade. A mesma ferramenta que pode incentivar o consumismo, manipular opiniões e influenciar comportamentos pode também ser utilizada para alertar, informar e consciencializar as pessoas. Tudo depende da mensagem que se pretende transmitir e da responsabilidade com que o designer decide comunicar.
Acredito que o futuro do design se encontra aqui. Claro que continua a ser uma ferramenta de comunicação, mas o seu grande crescimento vai acontecer quando assumirmos que, para além de comunicar, também educa. O futuro do design gráfico passa por reconhecer esta dimensão educativa e cultural. Não se trata de transformar todos os projetos gráficos em objetos pedagógicos, mas de compreender que qualquer peça de comunicação pode contribuir para a forma como pensamos, aprendemos e nos relacionamos com a informação.
- «Munari defende que o interesse pelo livro e pela leitura começa na primeira infância, quando o individuo começa a formar sua inteligência. Portanto, segundo o autor, se a criança é exposta à livros que geram apenas aborrecimentos, as chances dela se transformar em um adulto que não gosta de ler, são muito grandes.»
Ferreira, Carolina (2020), Medium ↩︎ - «It would be hypocritical for us to work for environmental change without encouraging customers to think before they buy. To reduce environmental damage, we all have to reduce consumption as well as make products in more environmentally sensitive, less harmful ways.».
Patagonia. (2011, 25 de novembro). Don’t buy this jacket [Anúncio publicitário]. Pantagonia Site ↩︎
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