Author: Teresa Nobre Patrício Cirera Dória

  • O Designer Gráfico perante a Inteligência Artificial

    Será que um Designer Gráfico e a Inteligência Artificial podem coexistir?

    Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 38,7% das pessoas entre os 14 e os 76 anos já utilizam a inteligência Artificial. Perante esta realidade, negar a sua existência ou a sua evolução torna-se cada vez menos sustentável.

    Este número tem um impacto significativo no quotidiano do designer gráfico, dando a capacidade de qualquer pessoa auto intitular-se com esta profissão. A verdadeira pergunta é: como é que os designer gráficos habilitados são capazes de coexistir com a Inteligência Artificial?

    Daí proponho que nos aliemos à IA e que a utilizemos como um meio para melhorar o nosso trabalho. Porque não aceitar que a Inteligência Artificial nos ajude a remover fundos no Photoshop, a criar prolongamentos de imagens ou até a desenvolver mockups. 

    A realidade é que não podemos reduzir o trabalho do designer a estas tarefas, pois são apenas aspetos técnicos que o designer precisou de aprender para conseguir desenvolver o seu trabalho. Tal com o um artigo da Creative Freedom explica a Inteligência Artificial consegue acelerar o processo criativo de um designer automatizado tarefas repetitivas dando mais espaço no processo criativo do designer para a exploração de ideias e no desenvolvimento de conceitos, no entanto a eficiência da inteligência artificial nunca irá conseguir competir com a visão estratégica, a identidade e com o storytelling de um designer. 

    Por isso sugiro que Inteligência Artificial seja vista como uma ferramenta e não como uma forma de substituir o processo de criação.

    E isto leva-nos a uma questão muito mais difícil de justificar quando colocamos as palavras “designer” e “Inteligência Artificial” na mesma frase: onde está o limite daquilo que a IA pode fazer no trabalho de um designer?

    Numa conversa com colegas, apercebi-me da razão pela qual me custa tanto aceitar esta ferramenta no meu processo de trabalho. Muitas pessoas utilizam a IA como uma espécie de enciclopédia e raramente questionam o objetivo, o significado ou a veracidade daquilo que lhes é apresentado. Esta questão é, para mim, uma das mais preocupantes: a perda da capacidade de questionar o que esta maquina é capaz ou não de fazer.

    A IA funciona através de padrões e dados, e existe o risco de nos tornarmos demasiado dependentes das respostas que ela nos oferece. A resposta torna-se muito mais fácil de obter através de um simples clique, retirando espaço à descoberta, à pesquisa e à vontade de procurar conhecimento. Por mais drástico que possa parecer, temo que a facilidade de acesso a respostas imediatas possa contribuir para uma geração menos interessada em questionar e mais disposta a aceitar uma resposta rápida. Nesse processo, o poder da descoberta, da criação e da inovação pode acabar por ser esquecido.

    Todas as grandes inovações surgiram de uma enorme vontade de descobrir mais. Se nos limitarmos a aceitar cegamente a informação que uma máquina nos apresenta, sem a questionarmos, experimentarmos ou explorarmos por nós próprios, corremos o risco de nunca chegar verdadeiramente à inovação.

    É aqui que encontro uma das principais diferenças entre aquilo que a Inteligência Artificial pode fazer e aquilo que considero ser o trabalho de um bom designer.

    Seria possível existir um trabalho como o de David Carson [1] , Paula Scher [2] ou Neville Brody [3] sem experimentar novas formas de criar? Estes designers não se limitaram a reproduzir aquilo que já existia, questionaram padrões, tendências, e exploraram novas possibilidades; procuraram formas diferentes de comunicar. Foi precisamente essa vontade de descobrir que lhes permitiu marcar o mundo do design. Viram o erro como um fio condutor para a criação e partiram da iteração para chegar à inovação.

    Para além disso, existe outra característica que, na minha perspetiva, coloca o ser humano numa posição única: a sua capacidade de experienciar o mundo através dos sentidos. Filósofos como David Hume defendiam que os sentidos nos permitem adquirir conhecimento a partir da experiência e que, a partir dessas experiências, a nossa mente é capaz de formar e combinar ideias. É através desse processo que podemos imaginar novas possibilidades e chegar a algo que ainda não existe.

    A Inteligência Artificial pode analisar milhares de imagens de texturas, mas não experiência uma textura da mesma forma que um ser humano. Um designer pode caminhar pela rua, observar uma parede desgastada, reparar na sua textura e, a partir dessa experiência, questionar de que forma aquele padrão poderia servir de ponto de partida para um conceito de logótipo ou para uma campanha publicitária. É nessa relação entre experiência, observação, interpretação e criação que encontro uma das características mais particulares do ser humano.

    Por fim, existe uma característica à qual um designer se pode agarrar quando se encontra em constante competição com a IA: o simples facto de ser humano. Um artigo da Medium de Paul Martinés diz que nenhuma máquina consegue estabelecer uma relação humana com um cliente da mesma forma que um designer consegue. A troca de ideias, o pensamento crítico e a partilha de diferentes perspetivas são elementos essenciais no processo de desenvolvimento de um trabalho.

    É isto que, essencialmente, nos diferencia da IA. Continuamos a ser humanos e, enquanto seres humanos, temos uma necessidade fundamental de comunicar e de nos relacionarmos com os outros. Afinal, é isso que um designer de comunicação faz, comunica.

    E que sentido faria limitar essa comunicação ao que uma máquina nos diz para dizer?

    Designer | Inteligência Artificial | Processo Criativo | Experiência | Ideia| Inovação | Relação Humana

    [1] «David Carson (born 1955) is the American art director who defined 1990s grunge and deconstruction typography. As founding art director of Ray Gun magazine (1992–1996) he broke nearly every Swiss-school convention in public — and his 1995 […]».

    The Graphic Design School, David Carson, The surfer-turned-art-director who tore up the Swiss rulebook and made type feel again.  

    [2] «Paula Scher (born 1948) is the American designer who took typographic postmodernism out of the theory books and onto Fortune-500 letterheads.».

    The Graphic Design School, Paula Scher, The American designer who made typography shout — and stuck the landing on identity.

    [3] «Neville Brody is one of the most celebrated graphic designers of his generation – a leading typographer and internationally recognised art director and brand strategist.».

    Royal College of Art ,Professor Neville Brody.