O fazer, o ser e o projetar no Design

Desconstrução do estatuto do designer e a ilusão da formação académica

Existe uma ilusão de que a prática do design exige uma autorização formal, acessível apenas a quem passa pela academia ou dispõe dos recursos financeiros necessários. No entanto, um diploma universitário não garante, por si só, sensibilidade crítica ou qualidade no trabalho de design. Do mesmo modo, a ausência de formação institucional, seja por falta de oportunidades, de acesso ou por visibilidade mediática, não diminui o valor do seu trabalho enquanto designer.

Tal como defendem Beatriz Colomina & Mark Wigley, em Are We Human, o design é, ao contrário do que alguns designers sugerem, um ato intrinsecamente humano e universal.

“Design is the most human thing about us. Design is what makes the human. It is the basis of social life…”

Are We Human , Beatriz Colomina & Mark Wigley

Contudo, a prática de design de forma ética e informada exige pensamento crítico, autoaprendizagem e sensibilidade ao contexto. Ou seja, a verdadeira qualidade do design não se afere pelo estatuto financeiro nem pelo título académico do seu autor, mas sim pela vivência ética, pela responsabilidade e pela capacidade de criar harmonia real no quotidiano das pessoas.

A prática do design assemelha-se, neste aspeto, ao universo da música. Ambas as disciplinas ultrapassam a mera técnica ou a aplicação mecânica de regras. Um músico pode formar-se nos conservatórios mais prestigiados ou aprender de forma autodidata, nas ruas e através da tradição oral. No entanto, o que distingue a qualidade da sua obra não é o diploma, mas sim a sua capacidade de escuta, a perceção do ritmo, a compreensão das leis da acústica e a intuição para criar ressonância.

1. The abstract painting Polyphony (Polifonia) created in 1932 by Swiss-German artist Paul Klee.

No design, essa harmonia não é um mero ornamento estético, mas o equilíbrio rigoroso entre forma, função e meio. Da mesma forma que um instrumento desafinado ou um arranjo sem ritmo geram ruído e desconforto acústico, um design concebido sem ergonomia, clareza ou responsabilidade social produz atrito, exclusão e dano na vida real.

“Design routinely constructs radical inequalities.” (…) “lnequalities are being crafted in everything we see, don’t
see, or don’t want to see.”

Are We Human , Beatriz Colomina & Mark Wigley

Para contrariar esta desigualdade no acesso à prática do design, a investigadora e ativista Sasha Costanza-Chock introduz, através do conceito de Design Justice, uma perspetiva assente na Teoria do Ponto de Vista Feminista (Feminist Standpoint Theory). Esta abordagem reconhece que todos somos detentores de conhecimento a partir da nossa própria experiência e que essa vivência constitui um contributo válido para qualquer processo de criação.

“We believe that everyone is an expert
based on their own lived experience, and that we all have unique
and brilliant contributions to bring to a design process.”

Design Justice, Sasha Costanza-Chock

Esta perspetiva parte da ideia de que todo o conhecimento é situado, sendo construído a partir das experiências e realidades de cada pessoa. Quem vive determinado problema no quotidiano compreende as necessidades e dificuldades da sua comunidade de uma forma que dificilmente pode ser reproduzida por um especialista externo. Assim, a experiência individual e coletiva deve ser reconhecida como uma forma legítima de conhecimento e de participação no design.

Esta ideia também se manifesta fora das estruturas profissionais convencionais. Em CAPS LOCK, Ruben Pater aborda a produção visual e a economia informal através do conceito de System D (termo derivado da palavra francesa débrouillard, que significa “desenrascado” ou a capacidade de “desenrascar”), associado à capacidade de desenrasque e à criação de soluções fora dos circuitos económicos formais. Estas práticas mostram que a inteligência projetual não nasce apenas das instituições, mas também da necessidade, da improvisação e da colaboração entre pessoas.

“In many countries, studying design,
and studying in general, is only available to a few. We should also keep in mind that the informal economy is the still the largest employer worldwide. Informal jobs account for 60 percent of all jobs, and in Sub-Saharan Africa for as much as 75 percent.”

CAPS LOCK, Ruben Pater

2. The falsification of identity documents.

Um exemplo histórico desta produção gráfica informal, desenvolvida em resposta a necessidades de sobrevivência, é o da Falsificatie Centrale (FC). Fundada em Haia pelo estudante J. J. de Weert, esta central especializou-se na falsificação clandestina de carimbos e documentos oficiais. Em novembro de 1943, integrou a Landelijke Organisatie voor Hulp aan Onderduikers (LO, Organização Nacional de Apoio aos Clandestinos), fornecendo à resistência holandesa documentos essenciais para proteger pessoas perseguidas durante a ocupação.

O trabalho da FC demonstra como o conhecimento técnico da reprodução gráfica podia contrariar a própria função dos sistemas burocráticos. Os mesmos códigos visuais utilizados pelas autoridades para controlar a população eram agora usados para proteger quem procurava escapar à perseguição. Esta prática aproxima-se da lógica do System D, que mostra como a criatividade, a improvisação e a colaboração podem gerar soluções fora das estruturas institucionais. O design torna-se, assim, uma ferramenta de resistência e de transformação da realidade.

Estas práticas levantam novamente a questão de quem tem legitimidade para fazer design e de quem define os limites desta prática. Esta reflexão pode ser relacionada com a obra O Processo, de Franz Kafka, na qual um homem do campo passa a vida à espera da autorização de um guardião para entrar pela porta da Lei. Só no final é que descobre que aquela entrada estava destinada exclusivamente a si e que o guardião nunca o tinha impedido fisicamente de entrar. A espera e a crença de que precisava de autorização acabaram por se tornar a sua própria barreira.

3. Franz Kafka: The Drawings

A metáfora permite questionar até que ponto as estruturas académicas, profissionais e institucionais funcionam como guardiões de uma prática que, na sua origem, é humana e universal.

(…) “what doing “design” actually meant, what being
a “designer” involved, and crucially, who designed.”

Design Struggles, Claudia Mareis & Nina Paim

Tal como em Design Struggles reforça, é importante questionar o que significa fazer design, o que significa ser designer e, acima de tudo, quem pode assumir esse papel?

Notas

  1. COLOMINA, Beatriz; WIGLEY, Mark. Are We Human? Notes on an Archaeology of Design, 2016.
  2. COSTANZA-CHOCK, Sasha. Design Justice, 2020.
  3. PATER, Ruben. CAPS LOCK: How capitalism took hold of graphic design, and how to escape from it. Amesterdão: Valiz, 2021.
  4. NETWERK OORLOGSBRONNEN. “Falsificatie Centrale (FC)”. Oorlogsbronnen.nl. Haia, 1943.
  5. KAFKA, Franz. O Processo, 1925.
  6. VELDEN, Daniel van der. Research & Destroy: Graphic Design as Investigation. 2006.
  7. PATER, Ruben. CAPS LOCK: How capitalism took hold of graphic design, and how to escape from it, 2021.
  8. MAREIS, Claudia; PAIM, Nina, orgs. Design Struggles: Intersecting Histories, Pedagogies, and Perspectives, 2021.

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