Maria Furtado

Abro um site e aparece logo um pop-up. Um botão grande e colorido diz “Aceitar cookies” e, ao lado, em cinzento e letra pequena, lê-se “Gerir preferências“. Quase ninguém pensa duas vezes, clicamos, o pop-up desaparece e seguimos. Ninguém nos obrigou, é verdade, mas a interface apresentou a pergunta de forma a tornar uma das respostas muito mais fácil do que a outra.
No post anterior, falei de como o design molda a nossa atenção. Aqui, dou um passo atrás e questiono quem está por trás desse botão. Se o design influencia as nossas escolhas, até que ponto é responsável quem o cria?
À primeira vista, é só uma decisão de interface, o tamanho de um botão ou uma cor. Mas estas decisões não são neutras, são pensadas. A forma como as opções são apresentadas pode influenciar a nossa escolha, mesmo quando acreditamos estar a decidir livremente.
O problema não é haver um botão para aceitar cookies, mas sim empurrar o utilizador para uma resposta que convém a quem criou a interface. É aqui que entra a ética do design, não basta saber se uma solução funciona, é importante fazer perguntas, a quem serve, que interesses representa e que consequências tem?
Estas práticas remetem novamente para os padrões enganosos, termo que abordei no último post. O Comité Europeu para a Proteção de Dados (EDPB) publicou um guia para reconhecer e evitar estas práticas nas interfaces das redes sociais [1]. Este guia mostra como a forma de uma interface foi construída pode dificultar a tomada de determinadas decisões, favorecer outras e condicionar a experiência do utilizador.
Maior parte dos sites assenta num modelo de negócio que depende da recolha de dados e da capacidade de antecipar comportamentos, de forma a gerar valor económico. E é através das interfaces que esse modelo vai prosperar ou não, são criadas as condições para recolher dados, obter permissões e incentivar determinadas ações. É por isso que é importante questionar não só o resultado visual de uma solução, mas também os interesses que estão por detrás dela e o papel do designer na sua realização.
Mike Monteiro, co-fundador do estúdio Mule Design, em Ruined by Design [2], defende que os designers devem assumir a responsabilidade pelo trabalho que criam e rejeita a ideia de que o designer se limita a executar pedidos, lembrando que as suas decisões têm consequências para as pessoas que interagem com o seu trabalho.
Imaginemos que uma empresa pede a um designer para aumentar a taxa de aceitação de cookies. O pedido parece simples, levar mais pessoas a clicar em “Aceitar“. Mas isso significa que a experiência melhorou? Se a taxa subir porque a opção de recusar ficou menos visível, o objetivo foi cumprido à custa de uma escolha menos clara. O designer respondeu ao objetivo da empresa, mas pode ter criado outro problema para o utilizador. A diferença está naquilo que se entende por sucesso, conseguir mais cliques ou garantir que as pessoas compreendem as opções que têm à sua frente.
Os designers não trabalham isoladamente, as suas decisões fazem parte de processos que envolvem diferentes interesses, níveis de poder, objetivos das empresas e diferentes expectativas de clientes e níveis de sucesso. E quando este sucesso é medido pelo número de cliques, pelas vendas ou pelo tempo que alguém passa numa plataforma, é normal que o design seja orientado para esses resultados. Mas o problema surge quando alcançar esses objetivos se torna mais importante do que garantir uma experiência clara e justa para o utilizador. Isto não significa que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre quem , mas também não significa que fiquem isentos.
Esta questão da distribuição de responsabilidades e consequências também está presente em Design Justice [3], de Sasha Costanza-Chock, que analisa a relação entre design, poder e desigualdade. A autora chama a atenção para a importância de questionar quem participa nas decisões de um projeto e quem beneficia dos seus resultados. Afinal, as escolhas de design não afetam todos da mesma forma, aquilo que é pensado para facilitar a experiência de uns pode criar obstáculos a outros.
Voltando ao botão do início, a opção “Gerir preferências” estava lá, mas isso significa que tivemos uma escolha verdadeiramente livre? A diferença entre as duas opções não estava apenas no texto, mas também no tamanho, na cor e na importância que a interface lhes atribuiu. Podíamos escolher, mas uma das escolhas tinha sido claramente favorecida.
E é nestes pequenos detalhes que o design revela o seu poder. Não é necessário proibir uma opção para a tornar menos provável, nem obrigar alguém a tomar uma decisão para influenciar o seu comportamento. Basta, por vezes, torná-la menos visível, mais demorada ou mais difícil de compreender.
O designer não controla todas as decisões de um projeto, mas participa na construção destas condições. Pode questionar os objetivos que lhe são apresentados, a forma como o sucesso é medido e as consequências das soluções que desenvolve. Nem sempre terá poder para alterar o resultado, mas isso não torna irrelevantes as perguntas que colocou ao longo do processo.
Se o design participa na construção do mundo em que vivemos, importa pensar não só no que conseguimos fazer, mas também no impacto daquilo que fazemos. Desenhar uma interface é também decidir o que merece destaque, o que fica em segundo plano e que possibilidades deixamos ao alcance de quem a utiliza. Talvez seja esta a pergunta que deve acompanhar qualquer processo de design, a quem serve aquilo que estamos a criar?
Notas
- Comité Europeu para a Proteção de Dados (2023). Guidelines 03/2022 on deceptive design patterns in social media platform interfaces: how to recognise and avoid them (versão 2.0). edpb.europa.eu
- Monteiro, M. (2019). Ruined by Design: How Designers Destroyed the World, and What We Can Do to Fix It. Mule Books. ruinedby.design
- Costanza-Chock, S. (2020). Design Justice: Community-Led Practices to Build the Worlds We Need. MIT Press. designjustice.mitpress.mit.edu
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