Author: joanamoreno91da071c12

  • A prática do design na contemporaneidade

    O papel do designer perante desafios atuais

    O que implica trabalhar na área do design na atualidade? A prática do design não depende apenas das ideias e decisões de quem o exerce, mas também das exigências do mercado e das condições em que o trabalho é desenvolvido. As transformações tecnológicas e económicas colocam novos desafios à profissão e levantam questões sobre os limites da liberdade criativa e o espaço para uma prática crítica.

    Bumper sticker by Freelance Studio, who found the original image on Twitter

    No contexto profissional, os designers podem assumir responsabilidades limitadas a determinadas fases de um projeto, sem participar nas decisões relativas ao seu propósito, ao público-alvo ou às suas possíveis consequências. A sua intervenção é frequentemente condicionada por prazos, briefings e objetivos estabelecidos pelo cliente, restringindo a autonomia na tomada de decisões e a possibilidade de explorar abordagens alternativas ou questionar as opções definidas.

    A possibilidade de criar e explorar novas ideias é uma das principais motivações para seguir esta área. No entanto, essa expectativa nem sempre corresponde à realidade do trabalho, sobretudo quando a prática criativa se encontra subordinada às exigências de produtividade e rentabilidade.

    “The distance between orderly expectations and a chaotic reality.” What Design Can’t Do

    Silvio Lorusso em What Design Can’t Do, aborda esta distância entre as expectativas que depositamos no design e a realidade da sua prática. Perante aquilo que idealizamos e aquilo que conseguimos concretizar, surgem limitações e contradições que condicionam o processo e podem tornar-se uma fonte de frustração para os designers. Mas de onde vêm estas limitações?

    Kevin Lo, Design and Capitalism (2015)

    Em Design After Capitalism, Matthew Wizinsky, e Design and Capitalism, Kevin Lo, exploram a relação entre o design e as estruturas económicas em que este se desenvolve. Como afirma Wizinsky:

    “Capitalism requires constant growth.” Design After Capitalism

    Num sistema capitalista, as empresas procuram aumentar continuamente os seus lucros, o que as leva a expandir as vendas, conquistar novos consumidores e reforçar a sua posição no mercado. Esta necessidade de crescimento económico influencia diretamente a prática do design, uma vez que as soluções criativas são utilizadas para promover produtos, estimular o consumo e diferenciar marcas da concorrência. Deste modo, a procura de lucro condiciona os objetivos do trabalho criativo, orientando-o para resultados comerciais.

    Estas limitações não são novas na prática do design, mas o avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial trouxe novos desafios. Hoje, é possível gerar imagens em poucos segundos, muitas vezes sem os conhecimentos técnicos que antes eram necessários para as produzir. Esta facilidade levanta uma questão concreta: se qualquer pessoa pode criar imagens com recurso a estas ferramentas, o que distingue o trabalho de um designer? Ao mesmo tempo, a produção constante de conteúdos visuais contribui para a saturação visual, tornando cada vez mais difícil captar a atenção do público. Neste contexto, importa perceber se o valor de um projeto está apenas na imagem final ou também nas ideias, nas decisões e na intenção que estão na sua origem.

    “Style is the feather in the arrow not the feather in the cap” Philosophical Style, Brand Blanshard

    Esta metáfora sugere que o estilo não deve ser um mero elemento decorativo, mas estar ao serviço de uma intenção. Tal como a pena permite orientar a flecha, a forma visual deve contribuir para a ideia que o projeto procura transmitir. O valor do design não reside apenas na aparência, mas na relação entre a forma, o pensamento e o propósito que lhe dão origem.

    “The fastest response might not be the best one to design for.” Manifesto Designing Friction

    Se a forma deve estar ao serviço de uma intenção, importa também considerar a experiência de quem contacta com o projeto. No manifesto Designing Friction, o atrito é entendido como uma forma de contrariar experiências excessivamente simples e imediatas, criando espaço para a participação e a descoberta. Esta perspetiva permite questionar se o design deve limitar-se a captar a atenção do público ou se pode também incentivar uma relação mais ativa com aquilo que comunica.

    Manifesto Designing Friction

    Em conjunto, estas questões mostram que a prática do design é influenciada não só pelas decisões criativas, mas também pelas condições económicas e tecnológicas em que se desenvolve. A procura de lucro condiciona os objetivos dos projetos, enquanto as ferramentas digitais e a inteligência artificial permitem produzir conteúdos visuais com maior rapidez, contribuindo para um ambiente cada vez mais saturado de imagens. Neste contexto, torna-se mais difícil encontrar espaço para a experimentação, a reflexão e a procura de soluções que vão além das exigências imediatas do mercado. Embora o design possa assumir um papel crítico e questionar as próprias condições em que é produzido, fazê-lo depende também da autonomia e dos recursos disponíveis para quem exerce a profissão. Como Afonso Matos defende em Who Can Afford to Be Critical?, a possibilidade de desenvolver uma prática crítica não está igualmente ao alcance de todos. Para quem depende de cada projeto para garantir o seu rendimento, recusar um pedido ou questionar as condições de trabalho pode ter consequências difíceis de assumir. Assim, a questão não passa apenas por aquilo que os designers criam, mas também pelas condições em que o fazem. Se o trabalho é orientado pela rapidez, pela produtividade e pela necessidade de captar atenção, que espaço resta para experimentar, refletir e questionar? E até que ponto podemos exigir uma prática crítica aos designers quando as próprias estruturas em que trabalham limitam essa possibilidade?

    Afonso Matos, Who Can Affort To Be Critical?

    Os casos e perspetivas apresentados são apenas algumas das formas de olhar para a realidade do design contemporâneo. Não oferecem uma visão completa da profissão, mas permitem reconhecer a complexidade das questões que a atravessam. Mais do que chegar a uma conclusão definitiva, importa perceber que estas questões permanecem em aberto e que a forma como cada designer se posiciona perante elas continua a ser uma escolha.

    Afinal, como se define hoje o papel do designer?

    Notes

    Bettenhausen, C. (2026). Film Photography Is Coming Back. Can Manufacturers Keep Up? Chemical & Engineering News.

    Blanshard, B. (1954). On Philosophical Style.

    de Matos, A. (2022). Who Can Afford to Be Critical?

    Designing Friction. Designing Friction Manifesto.

    Dunne, A., & Raby, F. (2013). Speculative Everything: Design, Fiction, and Social Dreaming. MIT Press.

    Garland, K. (1964). First Things First Manifesto.

    Lo, K. Design and Capitalism.

    Lorusso, S. (2023). What Design Can’t Do: Essays on Design and Disillusion. Set Margins’.

    Pater, R. (2021). CAPS LOCK: How Capitalism Took Hold of Graphic Design, and How to Escape from It. Valiz.

    Wizinsky, M. (2022). Design After Capitalism: Transforming Design Today for an Equitable Tomorrow. MIT Press.