O papel do designer perante desafios atuais
O que implica trabalhar na área do design na atualidade? A prática do design não depende apenas das ideias e decisões de quem o exerce, mas também das exigências do mercado e das condições em que o trabalho é desenvolvido. As transformações tecnológicas e económicas colocam novos desafios à profissão e levantam questões sobre os limites da liberdade criativa e o espaço para uma prática crítica.

Bumper sticker by Freelance Studio, who found the original image on Twitter
No contexto profissional, os designers podem assumir responsabilidades limitadas a determinadas fases de um projeto, sem participar nas decisões relativas ao seu propósito, ao público-alvo ou às suas possíveis consequências. A sua intervenção é frequentemente condicionada por prazos, briefings e objetivos estabelecidos pelo cliente, restringindo a autonomia na tomada de decisões e a possibilidade de explorar abordagens alternativas ou questionar as opções definidas.
A possibilidade de criar e explorar novas ideias é uma das principais motivações para seguir esta área. No entanto, essa expectativa nem sempre corresponde à realidade do trabalho, sobretudo quando a prática criativa se encontra subordinada às exigências de produtividade e rentabilidade.
“The distance between orderly expectations and a chaotic reality.” What Design Can’t Do
Silvio Lorusso em What Design Can’t Do, aborda esta distância entre as expectativas que depositamos no design e a realidade da sua prática. Perante aquilo que idealizamos e aquilo que conseguimos concretizar, surgem limitações e contradições que condicionam o processo e podem tornar-se uma fonte de frustração para os designers. Mas de onde vêm estas limitações?

Kevin Lo, Design and Capitalism (2015)
Em Design After Capitalism, Matthew Wizinsky, e Design and Capitalism, Kevin Lo, exploram a relação entre o design e as estruturas económicas em que este se desenvolve. Como afirma Wizinsky:
“Capitalism requires constant growth.” Design After Capitalism
Num sistema capitalista, as empresas procuram aumentar continuamente os seus lucros, o que as leva a expandir as vendas, conquistar novos consumidores e reforçar a sua posição no mercado. Esta necessidade de crescimento económico influencia diretamente a prática do design, uma vez que as soluções criativas são utilizadas para promover produtos, estimular o consumo e diferenciar marcas da concorrência. Deste modo, a procura de lucro condiciona os objetivos do trabalho criativo, orientando-o para resultados comerciais.
Estas limitações não são novas na prática do design, mas o avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial trouxe novos desafios. Hoje, é possível gerar imagens em poucos segundos, muitas vezes sem os conhecimentos técnicos que antes eram necessários para as produzir. Esta facilidade levanta uma questão concreta: se qualquer pessoa pode criar imagens com recurso a estas ferramentas, o que distingue o trabalho de um designer? Ao mesmo tempo, a produção constante de conteúdos visuais contribui para a saturação visual, tornando cada vez mais difícil captar a atenção do público. Neste contexto, importa perceber se o valor de um projeto está apenas na imagem final ou também nas ideias, nas decisões e na intenção que estão na sua origem.
“Style is the feather in the arrow not the feather in the cap” Philosophical Style, Brand Blanshard
Esta metáfora sugere que o estilo não deve ser um mero elemento decorativo, mas estar ao serviço de uma intenção. Tal como a pena permite orientar a flecha, a forma visual deve contribuir para a ideia que o projeto procura transmitir. O valor do design não reside apenas na aparência, mas na relação entre a forma, o pensamento e o propósito que lhe dão origem.
“The fastest response might not be the best one to design for.” Manifesto Designing Friction
Se a forma deve estar ao serviço de uma intenção, importa também considerar a experiência de quem contacta com o projeto. No manifesto Designing Friction, o atrito é entendido como uma forma de contrariar experiências excessivamente simples e imediatas, criando espaço para a participação e a descoberta. Esta perspetiva permite questionar se o design deve limitar-se a captar a atenção do público ou se pode também incentivar uma relação mais ativa com aquilo que comunica.

Em conjunto, estas questões mostram que a prática do design é influenciada não só pelas decisões criativas, mas também pelas condições económicas e tecnológicas em que se desenvolve. A procura de lucro condiciona os objetivos dos projetos, enquanto as ferramentas digitais e a inteligência artificial permitem produzir conteúdos visuais com maior rapidez, contribuindo para um ambiente cada vez mais saturado de imagens. Neste contexto, torna-se mais difícil encontrar espaço para a experimentação, a reflexão e a procura de soluções que vão além das exigências imediatas do mercado. Embora o design possa assumir um papel crítico e questionar as próprias condições em que é produzido, fazê-lo depende também da autonomia e dos recursos disponíveis para quem exerce a profissão. Como Afonso Matos defende em Who Can Afford to Be Critical?, a possibilidade de desenvolver uma prática crítica não está igualmente ao alcance de todos. Para quem depende de cada projeto para garantir o seu rendimento, recusar um pedido ou questionar as condições de trabalho pode ter consequências difíceis de assumir. Assim, a questão não passa apenas por aquilo que os designers criam, mas também pelas condições em que o fazem. Se o trabalho é orientado pela rapidez, pela produtividade e pela necessidade de captar atenção, que espaço resta para experimentar, refletir e questionar? E até que ponto podemos exigir uma prática crítica aos designers quando as próprias estruturas em que trabalham limitam essa possibilidade?


Afonso Matos, Who Can Affort To Be Critical?
Os casos e perspetivas apresentados são apenas algumas das formas de olhar para a realidade do design contemporâneo. Não oferecem uma visão completa da profissão, mas permitem reconhecer a complexidade das questões que a atravessam. Mais do que chegar a uma conclusão definitiva, importa perceber que estas questões permanecem em aberto e que a forma como cada designer se posiciona perante elas continua a ser uma escolha.
Afinal, como se define hoje o papel do designer?
Notes
Blanshard, B. (1954). On Philosophical Style.
de Matos, A. (2022). Who Can Afford to Be Critical?
Designing Friction. Designing Friction Manifesto.
Garland, K. (1964). First Things First Manifesto.
Lorusso, S. (2023). What Design Can’t Do: Essays on Design and Disillusion. Set Margins’.
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