Símbolo vs Símbolo: Opressão Heteronormativa

Fig. 1 – Prisioneiros do campo de concentração de Sachsenhausen com distintivos triangulares nos uniformes, 1938

Stuart Hall, sociólogo e um autor de referência da teoria da representação, defende que os símbolos não se limitam a representar e que o seu significado não é fixo, mas sim construído culturalmente, sendo-lhe atribuídos espaços e separando desses espaços quem lhes pertence ou não⁽¹⁾. Uma das questões que proporcionaram este ensaio é a capacidade mutável de um símbolo conforme o seu contexto. Principalmente, como é que um mesmo símbolo apresenta significados diferentes e o que isso representa sobre o papel do designer. Interessa-me sobretudo o que acontece quando o Estado usa uma imagem específica contra quem não encaixa na heterossexualidade compulsória, e de que forma vítimas fizeram uso dessas mesmas ferramentas para subverter o discurso homofóbico.

Fig. 2 – Billy Rojas, «Swastika Coincidences» e «Global Swastikas», 1983

Na verdade, a contextualização permite que o mesmo símbolo represente conceitos completamente opostos. Um deles é a suástica, um símbolo encontrado em inúmeras culturas pelo planeta fora. No entanto, o mesmo símbolo, a nível europeu representa o fascismo alemão do terceiro reich. Já na cultura hindu budista, a suástica é um símbolo milenar e sagrado, propício ao bem-estar e representativo de boa sorte, sem qualquer ligação histórica com o regime nazi⁽²⁾.

Nos campos de concentração nazis, o motivo da prisão de um prisioneiro era identificado a partir de um triângulo cosido ao uniforme. Os homens condenados por relações com outros homens eram, segundo o United States Holocaust Memorial Museum, normalmente identificados pelo triângulo cor-de-rosa⁽³⁾. A base legal era o Parágrafo 175, revisto pelo regime nazi em 1935, alargando o crime à prática de palavras e gestos⁽³⁾. Este mesmo museu conserva aquele que considera o único símbolo conhecido atribuído a um homem preso, simplesmente, por ser homossexual. Pertenceu a Josef Kohout, o prisioneiro n.º 1896 de Flossenbürg, Baviera. Trata-se de um pedaço de algodão pintado a óleo, datado de 1940⁽³⁾. Como objeto de design, a primeira coisa a apontar é a sua eficácia. Uma forma geométrica e uma cor bastavam para que qualquer guarda soubesse, à distância, como abordar determinado prisioneiro. A economia de meios que é tantas vezes elogiada no design concentra neste exemplo a sua versão mais sinistra.

Fig.3 – Simbologia utilizada para classificar os prisioneiros nos campos de concentração nazis; o triângulo cor-de-rosa corresponde à coluna «Homosexuell». Arolsen Archives, s.d.

Mais de setenta anos depois, a Rússia encontrou uma forma praticamente invisível de promulgar a homofobia. Numa lei aprovada em 2013, a “promoção de relações sexuais não tradicionais junto de menores” é proibida. Segundo a Human Rights Watch, esta proibição impede na prática que os jovens encontrem informação sobre pessoas LGBT na imprensa, na televisão, na rádio ou na internet⁽⁴⁾. Incrivelmente, o termo escolhido por quem legislou a homossexualidade na Rússia foi “propaganda”. Desta forma, a propaganda deixa de ser um discurso do Estado e passa a ser qualquer imagem de uma família com duas mães ou dois pais. Para quem pratica Design, isto tem consequências muito práticas: um livro infantil com essa família deixa de representar os melhores interesses dos jovens.

Em março de 1986, durante a crise da SIDA, o comentador conservador William F. Buckley Jr. sugeriu no New York Times que as pessoas infetadas pela doença fossem facilmente identificadas através da tatuagem. A resposta foi um cartaz composto por seis homens de Nova Iorque: Avram Finkelstein, Brian Howard, Oliver Johnston, Charles Kreloff, Chris Lione e Jorge Socarrás⁽⁵⁾. Sobre um fundo preto surge o triângulo cor-de-rosa acompanhado da expressão “SILENCE = DEATH”. Semanas depois, o ACT UP adotou a imagem, descrita pelo Brooklyn Museum como o símbolo visual central do ativismo contra a SIDA⁽⁶⁾. O mesmo triângulo que em Flossenbürg marcava um prisioneiro passou a apontar o dedo a quem tentou ocultar a verdade sobre um vírus responsável pela morte de mais de 44 milhões de pessoas⁽⁷⁾. Talvez seja a intenção do designer que decide uma determinada simbologia e como facilmente se origina e destrói um ideal. Um símbolo criado para humilhar tornou-se a forma mais clara de mostrar o custo do silêncio e da negação.

Fig. 4 – SILENCE = DEATH Project, «SILENCE = DEATH», cartaz, litografia offset, Nova Iorque, 1987. Brooklyn Museum

A comunicação clara e rápida é dos ideais mais facilmente reconhecimentos do design, pelo menos enquanto pilar económico do capitalismo. No entanto, não se pode apenas comunicar. É importante que o design deixe de ser a ferramenta a que os sistemas opressores recorrem. O triângulo de Josef Kohout comunicava na perfeição, no entanto, pelos motivos errados.

Fig. 5 – Keith Haring, «Silence = Death», 1989, acrílico sobre tela

A filósofa María Lugones lembra que o colonialismo impôs um sistema de género binário e heteronormativo⁽⁸⁾, e a clareza de muitas imagens depende precisamente dessa norma parecer natural. Descolonizar o design a partir de um olhar queer passa por perguntar quem fica de fora de uma imagem antes de perguntar se ela funciona. Sasha Costanza-Chock defende em Design Justice que as pessoas mais afetadas pelo design devem participar nas decisões sobre ele⁽⁹⁾, e o grupo de Avram Finkelstein fez isso mesmo em 1987, sem precisar do conceito. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, convenhamos que o triângulo cor-de-rosa precisou de praticamente cinquenta anos e de um cartaz colado à pressa numa parede de Nova Iorque, para valer mais do que mil palavras.

Referências

⁽¹⁾ Hall, S. (Ed.). (1997). Representation: Cultural representations and signifying practices. Sage; The Open University.

⁽²⁾ Hogeback, J. (s.d.). How the symbolism of the swastika was ruined. Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/story/how-the-symbolism-of-the-swastika-was-ruined

⁽³⁾ United States Holocaust Memorial Museum. (s.d.). Prisoner badge worn by Josef Kohout [Objeto da coleção, n.º de acesso 2012.482.1]. https://perspectives.ushmm.org/item/prisoner-badge-worn-by-josef-kohout

⁽⁴⁾ Human Rights Watch. (2018, 11 de dezembro). Russia: “Gay propaganda” law endangers children. https://www.hrw.org/news/2018/12/11/russia-gay-propaganda-law-endangers-children

⁽⁵⁾ Pontone, M. (2025, 9 de junho). The pink triangle that mobilized a movement. Hyperallergic. https://hyperallergic.com/1018227/act-up-pink-triangle-that-mobilized-a-movement/

⁽⁶⁾ SILENCE = DEATH Project. (1987). SILENCE=DEATH [Cartaz, litografia offset, 85,2 × 55,7 cm]. Brooklyn Museum. https://brooklynmuseum.org/objects/159258

⁽⁷⁾ UNAIDS. (2026). Fact sheet 2026: Global HIV statistics. https://www.unaids.org/sites/default/files/2026-07/2026_UNAIDS_Global_HIV_Factsheet_en.pdf

⁽⁸⁾ Lugones, M. (2010). Toward a decolonial feminism. Hypatia, 25(4), 742–759. https://warwick.ac.uk/fac/arts/english/currentstudents/postgraduates/pgmodules/theoryfromthemargins/syllabus/lugones_toward_a_decolonial_feminism.pdf

⁽⁹⁾ Costanza-Chock, S. (2020). Design justice: Community-led practices to build the worlds we need. MIT Press. https://cmsw.mit.edu/design-justice-community-led-practices-to-build-the-worlds-we-need/

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