Pretensiosismo e Design Indisciplinado

Terá o designer como fugir do pretensiosismo?

Vicente Romão

A grande maioria dos designers acedem a um conjunto de códigos sociais que acabam por torná-los “designers” aos olhos do mundo exterior: usar um computador Macbook, ter coffee table books, trabalhar nos seus projetos num café, não usar Comic Sans, partilhar memes sobre não gostar de ser designer. No que consistirá a fuga a essa norma? Como será essa indisciplinaridade recebida? Será vista como pretensiosa por “fingir” ser o que não é e fugir à norma e aos cânones do design, ou despretensiosa de tal modo que o seu trabalho deixa de ser levado a sério como objeto de design?

“What’s being performed, more than anything, is ambivalence: the most protective emotional position in a profession that demands passion but punishes vulnerability. When the stakes are this personal, forced indifference can feel like the only safe response.” [1]

Esta pequena amostra de um conjunto de características ou normas do designer convencional, que provavelmente existem em todas as outras profissões sob outros formatos, poderão contribuir para que a profissão seja vista como pretensiosa, no sentido em que se insere numa caixa facilmente propensa ao julgamento, e à formulação da ideia de que todos os designers são iguais. 

Figura 1 | The Pretentious Designer Starter Pack. Um meme patente na rede social Reddit que demonstra os objetos de um “designer pretensioso” convencional. [2]

Não obstante, o fenómeno supramencionado não impede que os designers também se acusem uns aos outros de serem pretensiosos — ora por apenas gostarem de um certo tipo de música, por usarem a expressão “Pode parecer pretensioso, mas…”, ou por simplesmente ambicionarem coisas maiores do que os seus pares.

A ambição, ou pretensão, pode facilmente ser confundida com pretensiosismo, tanto que os seus significados são frequentemente utilizados de forma intercambiável no dia-a-dia. Mas a pretensão não deve ser vista como uma coisa necessariamente má.

“In the arts, the word ‘pretentious’ has a special meaning: the attempt at something that the critic thinks you have no right even to try. I’m very happy to have added my little offering to the glowing mountain of things described as ‘pretentious’ – I’m happy to have made claims on things that I didn’t have any ‘right’ to, and I’m happy to have tried being someone else to see what it felt like.

I decided to turn the word ‘pretentious’ into a compliment. The common assumption is that there are ‘real people and there are others who are pretending to be something they’re not. There is also an assumption that there’s something morally wrong with pretending.” [3]

Todos temos um teor de pretensão no que fazemos — seja ao ambicionar um emprego mais bem pago ou almejar criar a identidade visual de um país, talvez a pretensão máxima da maioria dos designers. Efetivar a nossa pretensão máxima não nos iliba de sermos vistos como pretensiosos, como é o caso do Studio Eduardo Aires que, em 2023, redesenhou a identidade visual da República Portuguesa e foi altamente criticado pelo público e pelo atual governo pela simplicidade da proposta, o que culminou na sua inutilização e regresso à identidade visual anterior. Apesar disso, a identidade visual ganhou prémios de design nacional e internacionalmente.

Figura 2 | Identidade visual da República Portuguesa, concebida pelo Studio Eduardo Aires, 2023.

Dan Fox partilha desta opinião. No seu livro “Pretentiousness: Why it Matters” e em artigos como “In Defense of Pretentiousness” e “Class Act”, publicado na revista Frieze [4], posiciona-se ao lado do pretensiosismo, defendendo que, na maioria dos casos, a utilização desta palavra surge como forma de diferenciação entre o highbrow e lowbrow, intelectualidade e ignorância, profissional e amador.

Figura 3 | Livro “Pretentiousness: Why it Matters”, de Dan Fox, e tote bag promocional.

“Arguing about rules, regulations and right or wrong ways of doing things is one way of talking about the amateur and the professional; social categories that make pretentiousness an even knottier issue. The professional is licensed – by training, title, money, time spent – to work in a particular field. They can avoid the charge of pretension because they work in an official capacity. The amateur, on the other hand, might only do a certain thing at weekends or in the evenings, often for free and out of enthusiasm. The amateur doesn’t have the right credentials, so trying to do what the professional does might open them to accusations of being pretentious, of stepping above their station. Pretension is a question of optics: the pessimist sees pretension as a sham. The optimist views it as innocent, tragicomic, an excess of effort.” [5]

Tanto os designers como o design em si ganhariam mais ao ser mais pretensiosos, envergando não só pela vertente da pretensão mas também pelo pretensiosismo em si, não tendo medo de ser apelidados como “pretensiosos” e, ao invés disso, assumir e autoproclamar esse pretensiosismo de antemão, com o intuito final de chegar a resultados mais ambiciosos, mais “fora da caixa” e mais satisfatórios, que não teriam sido concretizados de outra forma.

“So, what is this, a book explaining what being pretentious means? I don’t know what it means so I looked it up.

I don’t think this book tries to explain what pretentiousness means. And if you wanted a list of pretentious things you could’ve just looked them up…” [6]

Citando a publicação “What We Talk About When We Talk About Pretentiousness”, e porque não há nada mais pretensioso do que citar a nossa própria publicação, em colaboração com Jorgina da Silva, Maria Ceregeiro e Maria Ribeiro, a aceitação do nosso estatuto como alunos de licenciatura em Design de Comunicação que fazem o seu trabalho final sobre a temática do pretensiosismo é um ato já por si pretensioso. A aceitação desse estatuto e, de certa forma, desse privilégio, não só nosso mas também da própria publicação, autoproclamada como pretensiosa, resultou numa maior liberdade para explorar a temática do pretensiosismo. Assim, serve este artigo como um incentivo ao pretensiosismo como ferramenta de produção de resultados mais ambiciosos e mais abertos.

Palavras-chave

Pretensiosismo; pretensão; pretensiosismo no design; design indisciplinado.

Notas

[1] Goodspeed, E. (2025, 27 de março). Elizabeth Goodspeed on why graphic designers can’t stop joking about hating their jobs. It’s Nice That. https://www.itsnicethat.com/articles/elizabeth-goodspeed-optimism-vs-pessimism-graphic-design-270325

[2] u/sattmolis (2017, 1 de agosto). The Pretentious Designer starterpack [Publicação no Reddit]. Reddit. https://www.reddit.com/r/starterpacks/comments/6qs7nc/the_pretentious_designer_starterpack/

[3] Eno, B. (1996). A year with swollen appendices. Faber and Faber.

[4] “Whoever you are, I can probably guess what you’re thinking. An essay on pretentiousness, in a glossy magazine about contemporary art; how pretentious can you get? Why? Because for many people, glossy magazines about contemporary art symbolize elitism and affectation much more than they do creative experimentation and freedom of thought.” — Fox, D. (2009, 1 de outubro). Class Act. Frieze. https://www.frieze.com/article/class-act

[5] Fox, D. (2016). Pretentiousness: Why it matters. Fitzcarraldo Editions.

[6] Silva, J., Ceregeiro, M., Ribeiro, M., & Romão, V. (2026). What We Talk About When We Talk About Pretentiousness. FBAUL

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