A Máquina do Design: Descolonizar A Mulher Portuguesa
por Mariana Moura a 9/10/2026 | Mestrado em Design de Comunicação, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa

7.º cartaz de “A Lição de Salazar“
Barata, J. M. (1938). Deus, Pátria, Família: A trilogia da educação nacional” Cartaz n.º 7 da série A Lição de Salazar. Edição da Escola Portuguesa; Bertrand (Irmãos) | link
Sempre ouvi histórias infelizes de violência doméstica no lar da minha mãe e da minha avó. Sei que a violência contra a mulher era promulgada pelo Estado Novo. Como neta e filha, a primeira questão que me surge é como é que se chegou àquele ponto. Como designer, questiono-me já sobre que ferramentas terá o Estado Novo utilizado para difundir a sua ideologia e construir a imagem da mulher submissa? Tal leva-me a refletir sobre como terá sido a transição destas duas mulheres, uma adulta e uma criança, depois da revolução. A partir desse olhar tento apelar a possíveis soluções para o que significaria hoje descolonizar o design hoje.
O provérbio popular “uma imagem vale mais do que mil palavras” traduz uma intuição que os regimes autoritários do século XX levaram com uma seriedade impetuosa. Maria Margarida Remédio, que estudou a iconografia do Estado Novo, nota que
“a percepção da imagem é imediata e não necessita de esforço”⁽¹⁾.
Num país em que grande parte da população era analfabeta, o provérbio tornou-se literal, e o regime procurou “criar discursos visuais simples, sóbrios e austeros”, como observa a investigadora em design Helena Barbosa⁽²⁾. Desta forma, o design nunca foi uma atividade neutra.

Galvão, H. (1934), “Portugal Não é um País Pequeno” P. J. Mode Collection of Persuasive Cartography (#8548), Division of Rare and Manuscript Collections, Cornell University Library| link
A descolonização do design questiona a pretensa universal de um design moderno e europeu e o seu papel nas relações coloniais de poder⁽³⁾. O género raramente está no centro deste debate, mas o feminismo decolonial permite a conexão. A filósofa María Lugones fala de uma colonialidade do género, em que o colonialismo impôs um sistema de género binário e heteronormativo, pelo que a opressão colonial não se separa da opressão de género⁽⁴⁾.
A ligação entre império e género não é recente: Anne McClintock mostrou como a publicidade britânica do século XIX levava o racismo para dentro de casa, num “racismo de mercadoria”⁽⁵⁾. Em Portugal, o Estado Novo criou em 1933 o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), dirigido por António Ferro, próximo dos fascismos europeus⁽⁶⁾. No mesmo ano, Joseph Goebbels assumia a propaganda nazi, “fazer propaganda é falar de uma ideia por toda a parte, até nos autocarros”⁽¹⁾.

O Decálogo do Estado Novo (1934) apropria-se da linguagem do design moderno: vermelho e preto, preceitos numerados como num manifesto e «ESTADO NOVO» em maiúsculas, quase como uma identidade visual⁽¹⁾. A Constituição de 1933 consagrava a igualdade dos cidadãos, mas ressalvava que, “quanto à mulher, as diferenças são resultantes da sua natureza e do bem da família”⁽⁷⁾.

União Nacional (1934) “Hontem: A miséria e o desconforto. Hoje: Bem estar e alegria. Povo, votai na lista da União Nacional“, Lith. de Portugal | link
A escola como instituição, foi um dos primeiros lugares onde esta diferença ganhou forma visual. No sétimo cartaz de “A Lição de Salazar“de 1938, dedicado a “Deus, Pátria, Família”, o patriarcado, segundo Maria Margarida Remédio, “é visível na figura do pai e pela postura submissa da mãe e dos filhos”⁽¹⁾. A historiadora Irene Pimentel mostra como a “Obra das Mães pela Educação Nacional” e a “Mocidade Portuguesa Feminina (MFP)” preparavam as raparigas para serem mães e esposas⁽⁸⁾. A mulher precisava do consentimento do marido para trabalhar no comércio, abrir uma conta bancária ou sair do país, ganhava perto de metade do salário dos homens, um desequilíbrio que ainda hoje está por resolver⁽⁹⁾.

“Registo Documental do Quotidiano Escolar” (ca. 1944), Diário de Notícias | link
Foi, no entanto, na imprensa e na publicidade que o design mais contribuiu para fixar a imagem da mulher submissa ao seu marido e à pátria. Analisando as «páginas femininas» das revistas Mundo Gráfico e A Esfera, as investigadoras Aldina Marques, Isabel Margarida Duarte, Alexandra Guedes Pinto e Catarina Pinho concluem que a mulher era confinada ao lugar de mãe e esposa, mas também construída como “sedutora, e, sobretudo, objeto de desejo e prazer”, em textos onde “o homem é, sem dúvida, um destinatário implícito”⁽⁷⁾. A publicidade que era dirigida à mulher era sobretudo de cosmética (com slogans como “Acorde mais nova todas as manhãs” e “A arte de ser feliz no casamento”), que recomendava à esposa que se mostrasse “sempre um pouco criança, pois o homem gosta imenso de se sentir forte e protector”⁽⁷⁾. O próprio design editorial destas revistas, mostra Mariana Facada, ajudou a construir essa imagem⁽¹⁰⁾.

Havas (1939) Feno de Portugal, Fábrica Santa Clara | link
Havas (ca. 1943) Feno de Portugal, Fábrica Santa Clara | link
Em Portugal Colonial, notam as mesmas autoras, as mulheres portuguesas quase não existem e surgem como grafismo decorativo, trazendo “frescura e graça” a um mundo masculino, enquanto as fotografias de mulheres africanas seriam “suscetíveis de agradarem ao olhar masculino, pela nudez, a juventude e a beleza dos corpos”⁽⁷⁾. A mulher branca era decorativa; a mulher colonizada era exposta. Ambas existiam para o olhar do homem branco. Existe, portanto, uma colonialidade de género. com conclui María Lugones, visível na página impressa⁽⁴⁾.
As mulheres foram também, por vezes, autoras de imagens que permitiram a promulgação da ideologia do Estado Novo. Uma das três autoras de A Lição de Salazar foi a pintora Raquel Roque Gameiro, embora a mãe submissa do sétimo cartaz seja de um homem, Martins Barata⁽¹⁾. A ilustradora Maria Keil trabalhou para o SPN e, em entrevista a Helena Barbosa, reconhece que o programa do regime era imposto, “claro”, mas que “o António Ferro era capaz de aceitar”⁽²⁾. O regime deu-lhes também lugar no seu aparelho: a Obra das Mães era dirigida sobretudo por esposas de membros do regime⁽⁸⁾, assim como as três primeiras deputadas, eleitas em 1934, ficavam afastadas dos assuntos económicos e financeiros⁽¹¹⁾. Maria Guardiola foi, de 1937 a 1968, a «primeira e duradoura» comissária nacional da Mocidade Portuguesa Feminina⁽¹²⁾.

Ser mulher “Horas despreocupadas e alegres”
Mocidade Portuguesa Feminina (1939–1947) Colónia de férias da Mocidade Portuguesa Feminina no Estoril . Mocidade Portuguesa Feminina: Boletim mensal, (n.º ?). Hemeroteca Digital de Lisboa. | link
Enturmar-se, porém, não significava necessariamente concordar. A escritora Maria Archer, uma das poucas colaboradoras de Portugal Colonial, viu as suas obras censuradas e viu-se obrigada ao exílio em São Paulo, como estuda a historiadora Maria Izilda Santos de Matos⁽¹³⁾. A tolerância de António Ferro tinha, afinal limites. Considerar estas mulheres apenas vítimas, seria repetir o gesto do Estado Novo, que as reduziu a figuras passivas.

Almada Negreiros, J. de. (1933) “Votai a nova Constituição: Nós queremos um Estado forte!“, Lith. de Portugal, Lith. de Portugal. Biblioteca Nacional de Portugal. | link
As leis que limitavam as mulheres “foram rasgadas no 25 de Abril”⁽⁹⁾, e a Constituição de 1976 fez da igualdade entre mulheres e homens um princípio fundamental⁽¹⁴⁾. Nas paredes, os cartazes políticos de 1974–1976, estudados por Helena Barbosa, Anna Calvera e Vasco Branco, opuseram-se visualmente ao Estado Novo⁽¹⁵⁾. A Revolução dos Cravos poderá ter marcado o início de uma transição, no entanto, a herança do regime não desapareceu. As autoras do estudo sobre as revistas verificam
“a permanência, na atualidade, de uma imprensa ‘feminina’ que aborda temas similares aos do período analisado”⁽⁷⁾.
Se dissesse que encontrei respostas para as minhas questões iniciais, estaria a mentir. Chegou-se à colonização da mulher não só pela lei, mas também pela imagem, e com as ferramentas do próprio design moderno. Questionar a pretensa universal do design moderno europeu⁽³⁾ significa mostrar que a linguagem do regime não era neutra. Ensinar a história do design como colonizador e as ideologias que serviu. Nunca foi mais relevante a descolonização da educação portuguesa atual, já que, ainda hoje nos manuais de história, permanece presente a colonização de imagens e teorias⁽¹⁷⁾. Sasha Costanza-Chock propõe que as pessoas afetadas deveriam ser as primeiras a envolver-se e a participar nas decisões sobre ele⁽¹⁶⁾, já que demonstra que descolonizar o design a partir de um olhar feminista passa menos por empregar mais mulheres designers e mais por mudar quem decide o que se desenha e para quem. No fim das contas, se uma imagem vale mais do que mil palavras, a forma como desenhamos as mulheres continua a dizer muito sobre o lugar que lhes é reservado.
Referências Bibliográficas
⁽¹⁾ Remédio, M. M. R. (2012). A lição de Salazar e a iconografia do Estado Novo: Contributo para a história da educação em Portugal (1933-1939) [Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa]. pp. 73, 86, 106–110, 134–145, 159, 166–173, 207. http://hdl.handle.net/10451/9382
⁽²⁾ Barbosa, M. H. F. B. (2011). Uma história do design do cartaz português do século XVII ao século XX [Tese de doutoramento, Universidade de Aveiro]. pp. 301–302, 430, 434–435. http://hdl.handle.net/10773/4706
⁽³⁾ Schultz, T., Abdulla, D., Ansari, A., Canlı, E., Keshavarz, M., Kiem, M., Martins, L. P. de O., & Vieira de Oliveira, P. J. S. (2018). What is at stake with decolonizing design? A roundtable. Design and Culture, 10(1), 81–101. https://bura.brunel.ac.uk/handle/2438/18629
⁽⁴⁾ Lugones, M. (2010). Toward a decolonial feminism. Hypatia, 25(4), 742–759. https://warwick.ac.uk/fac/arts/english/currentstudents/postgraduates/pgmodules/theoryfromthemargins/syllabus/lugones_toward_a_decolonial_feminism.pdf
⁽⁵⁾ McClintock, A. (1995). Imperial leather: Race, gender and sexuality in the colonial contest. Routledge.
⁽⁶⁾ Torgal, L. R. (1996). Cinema e propaganda no Estado Novo: A “conversão dos descrentes”. Revista de História das Ideias, 18. https://ap1.sib.uc.pt/bitstream/10316.2/41932/1/cinema_e_propaganda_no_estado_novo.pdf
⁽⁷⁾ Marques, A., Duarte, I. M., Pinto, A. G., & Pinho, C. (2019). A construção da identidade da mulher em revistas do Estado Novo. ex æquo, (39), 71–88. pp. 76–78, 80, 83–85. https://doi.org/10.22355/exaequo.2019.39.05
⁽⁸⁾ Pimentel, I. F. (2011). A cada um o seu lugar: A política feminina do Estado Novo. Temas e Debates/Círculo de Leitores. Recensão de A. R. V. Oliveira, e-cadernos CES, (14), 215–217. https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/36141/1/Pimentel%2c%20Irene%20Flunser%20%282011%29%2c%20A%20cada%20um%20o%20seu%20lugar%2c%20a%20pol%c3%adtica%20feminina%20do%20Estado%20Novo.pdf
⁽⁹⁾ Pinto, F., Araújo, D., & Tomás, S. (2014). O ideal feminino do Estado Novo [Reportagem]. RTP Ensina. https://ensina.rtp.pt/artigo/o-ideal-feminino-do-estado-novo/
⁽¹⁰⁾ Facada, M. A. O. F. (2018). Magazine da mulher: Reinterpretação gráfica e editorial de periódicos femininos do Estado Novo [Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa]. https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/6dd02da9-2016-4a7b-ac6f-851f4da83ba2
⁽¹¹⁾ Lusa. (2025, 7 de março). Parlamento evoca hoje 50 anos da «universalização do direito das mulheres ao voto» em Portugal. DNoticias.pt. https://www.dnoticias.pt/2025/3/7/440738-parlamento-evoca-hoje-50-anos-da-universalizacao-do-direito-das-mulheres-ao-voto-em-portugal/
⁽¹²⁾ Braga, I. M. R. M. D., & Braga, P. D. (2012). A Mocidade Portuguesa Feminina e a formação culinária em Menina e Moça (1947-1962). Cadernos Pagu, (39), 201–226. p. 203. https://biblat.unam.mx/hevila/CadernosPagu/2012/no39/6.pdf
⁽¹³⁾ Matos, M. I. S. de. (2021). A escrita como experiência de luta e resistência: Maria Archer. ArtCultura, 23(42), 154–174. https://doi.org/10.14393/artc-v23-n42-2021-61857
⁽¹⁴⁾ Fogaça, A. (2026, 25 de abril). 25 de Abril: Quando a liberdade começou também a ser das mulheres. Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. https://www.cig.gov.pt/2026/04/25-de-abril-quando-a-liberdade-comecou-tambem-a-ser-das-mulheres/
⁽¹⁵⁾ Barbosa, H., Calvera, A., & Branco, V. (2011). The design of Portuguese political poster: Two politics, two discourses. Design History Society. https://ria.ua.pt/handle/10773/7653
⁽¹⁶⁾ Costanza-Chock, S. (2020). Design justice: Community-led practices to build the worlds we need. MIT Press. https://cmsw.mit.edu/design-justice-community-led-practices-to-build-the-worlds-we-need/
⁽¹⁷⁾ Araújo, M., & Maeso, S. R. (2012). History textbooks, racism and the critique of Eurocentrism: Beyond rectification or compensation. Ethnic and Racial Studies, 35(7), 1266–1286. https://doi.org/10.1080/01419870.2011.600767; Lusa. (2024, 16 de março). Manuais escolares ensinam Guerra Colonial de forma mais isenta, mas professor diz que falta a versão dos colonizados. Observador. https://observador.pt/2024/03/16/manuais-escolares-ensinam-guerra-colonial-de-forma-mais-isenta-mas-professor-diz-que-falta-a-versao-dos-colonizados/
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