José Henrique Dias
Dizemos muitas vezes que o design pode mudar o mundo. Mas será que damos realmente condições aos designers para o fazer? E será que precisamos de lhes dar essa responsabilidade toda?
O Critical Design entra aqui porque nos deixa sair da lógica de receber um briefing, resolver um problema e passar ao seguinte. Em vez de apresentar uma solução, pode criar objetos e situações que nos deixam a questionar coisas que normalmente aceitamos sem pensar muito nelas. O que me deixa de pé atrás é a ideia de que basta um designer querer fazer diferente para o conseguir fazer.

Página da zine Who Can Afford to Be Critical?, desenvolvida no âmbito do projeto de Afonso Matos sobre as condições económicas e sociais da prática crítica em design. Link
“I tried to subvert capitalism with my design practice. Now I’m looking for a job.” (Matos, 2022, p. 26).
Frase engraçada… mas que aponta para uma contradição real. Quem tem tempo e dinheiro para desenvolver projetos sem uma bolsa ou cliente? Quem pode arriscar trabalhar em algo sem saber se vai ter um retorno? E, quando esse trabalho chega ao público, quem decide o que devemos retirar dele? O designer escolhe o tema e constrói a proposta, mas até que ponto deixa espaço para que outras pessoas discordem da sua leitura?
Em Who Can Afford to Be Critical?, Afonso Matos questiona a imagem do designer independente, capaz de trabalhar à margem das exigências do mercado.
“The dream of Critical Design is, then, to counter this lack of power, propagating the image of a designer whose role concentrates all roles (…)- an independent author(its) divorced from the demands of the market. But in What contexts can this image hold ground?” (Matos, 2022, p. 35).
A pergunta importa porque o designer é também um trabalhador. Tem as suas contas para pagar e, muitas vezes, depende de clientes ou empregadores para continuar a fazer esse trabalho. Criar um projeto por iniciativa própria pode parecer uma escolha linda e bastante livre, mas essa liberdade não está disponível para todos da mesma maneira. Se passamos o dia a responder a briefings, quando é que fazemos o trabalho que queremos propor? E se a resposta for depois do horário de trabalho, não estaremos a transformar a autonomia numa espécie de obrigação extra?
Daniel van der Velden defende em Research and Destroy: Graphic Design as Investigation, que a prática de design não se pode limitar a responder a problemas definidos por outras pessoas. O designer também pode investigar e produzir trabalho a partir das suas próprias perguntas.
“The designer must use this freedom, for once, not to design something else, but to redesign himself” (van der Velden, 2006).
Esta ideia do “redesenhar-se” abre espaço para pensar o designer para lá da função que lhe é esperada. Ter iniciativa não elimina as condições económicas em que se trabalha. Mas até onde pode ir essa autonomia? Afonso Matos deixa-nos com esta dúvida:
“(…)what can they actually do? Maybe not that much.” (Matos, 2022, p. 33).
A frase põe em causa a expectativa de que o designer, por si só, consiga alterar as estruturas de que depende.
O trabalho de Matos interessa-me pela dimensão coletiva. As conversas e petições que reuniu foram parte da sua investigação; o que importa aqui é a possibilidade de pensar a prática do design a partir de experiências e vozes que não se reduzem à posição de um único autor. A autonomia deixa, assim, de significar necessariamente trabalhar sozinho.

Fanzines desenvolvidos no âmbito de Who Can Afford to Be Critical?, projeto de Afonso Matos que reuniu estudantes em torno das condições económicas e sociais da prática do design. Link
Anthony Dunne e Fiona Raby definem o Critical Design como uma atitude que usa propostas especulativas para questionar pressupostos sobre o papel dos produtos na vida quotidiana, em vez de reforçar o estado das coisas (Dunne & Raby, s.d.).
No Placebo Project (2001), Dunne e Raby criaram oito objetos protótipo relacionados com os campos eletromagnéticos em casa e entregaram-nos a voluntários, procurando explorar as experiências e histórias que estas pessoas associavam a tecnologias que não conseguiam ver diretamente (Dunne & Raby, 2001). O projeto permite pensar como um objeto pode provocar perguntas sem apresentar uma resposta fechada.

A GPS Table, de Anthony Dunne e Fiona Raby, apresenta um pequeno ecrã integrado no tampo que mostra a palavra “lost” ou as coordenadas do local. O objeto faz parte do Placebo Project (2001), uma experiência sobre as perceções e narrativas que as pessoas constroem em torno dos campos eletromagnéticos no espaço doméstico. Link
Ainda assim, o designer continua a escolher o tema e a construir a situação em que as respostas surgem. Isso não torna o projeto menos interessante, mas lembra-nos que a participação começa dentro de um enquadramento já definido. Será que estamos a abrir um debate ou a decidir antecipadamente os limites daquilo que pode ser discutido?
Um projeto pode estar disponível online e continuar a chegar sobretudo a quem já se interessa por design. Também pode ser exposto num museu ou universidade, sem que isso signifique que as pessoas o compreendem ou discutem. Estar acessível não é o mesmo que ter oportunidade de participar.
É nesta passagem da reflexão à participação que o trabalho de Francisco Laranjo me parece acrescentar outra perspetiva. Design Systems, integrado na Porto Design Biennale de 2019 e com curadoria de Laranjo, procurou questionar os sistemas que dão forma ao design e a maneira como este os reforça. Este projeto incluiu workshops colaborativos abertos a um público diverso, cujos resultados foram apresentados em várias estações do Metro do Porto. Um dos workshops, orientado por Ruben Pater, abordou os meios de produção do design gráfico e as condições que permitem produzir e fazer circular trabalho (Porto Design Biennale, 2019).
Intervenção no espaço do Metro do Porto no âmbito de Design Systems (2019), iniciativa que levou a discussão sobre os sistemas e o valor do design para espaços públicos. Link
Ao contrário do exemplo de Matos, que me leva a pensar na importância de construir uma reflexão coletiva, Design Systems permite olhar para o que acontece quando essa reflexão se traduz num projeto concreto e sai dos espaços habituais de exposição. Isso não prova que tenha chegado a todos ou provocado uma mudança duradoura. Mas levanta uma questão essencial:
Como podemos criar oportunidades para que as pessoas não sejam apenas espectadoras do design, mas possam participar na discussão que ele propõe?
Não acho que o Critical Design tenha de resolver problemas sociais para justificar a sua existência. Também não acho que um projeto perca o seu valor só porque alguém o observa sem reconhecer a intenção crítica do autor. Nem todas as experiências precisam de produzir uma transformação imediata.
Mas a intenção do designer também não chega. Se queremos questionar o mundo através do design, temos de olhar para as condições que tornam esse trabalho possível e para as pessoas que ficam de fora das perguntas que propomos.
Talvez o objetivo não seja transformar o designer num herói capaz de mudar tudo. Talvez seja deixar de o colocar sempre no centro. Criar condições para produzir trabalho crítico importa, mas também importa aceitar que o sentido de um projeto não tem de ficar nas mãos de quem o criou.
Afinal, se o Critical Design pretende ajudar-nos a imaginar outros futuros, porque deve ser sempre o designer a decidir quais são as perguntas que fazemos sobre eles?
Bibliografia
De Matos, A. (2023). Who can afford to be critical? DAMN°. https://www.damnmagazine.net/who-can-afford-to-be-critical-
Dunne, A., & Raby, F. (s.d.). Critical Design FAQ. https://dunneandraby.co.uk/content/bydandr/13/0
Dunne, A., & Raby, F. (2001). Placebo Project. https://dunneandraby.co.uk/content/projects/70/0
Matos, A. (Ed.). (2022). Who can afford to be critical? An inquiry into what we can’t do alone, as designers, and into what we might be able to do together, as people. Set Margins’. https://www.are.na/block/33701380
Público. (2019, October 18). O design entra no Metro do Porto e diz. https://www.publico.pt/2019/10/18/p3/fotogaleria/o-design-entra-no-metro-do-porto-e-diz-397885
Porto Design Biennale. (2019). Design Systems: Investigação em sistemas de design. https://www.portodesignbiennale.pt/pt/edicoes/2019/design-systems
Van der Velden, D. (2006). Research & Destroy: Graphic Design as Investigation. (Pub. original) Metropolis M, (2). https://readings.design/PDF/vanderVelden_research-distroy.pdf