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  • Undisciplined Design

    por Eva Carolina Pinto

    “(…) We might now need to consider “undisciplinarity” is the most effective approach for the future of design.” 1

    O design tornou-se viral.

    O design tornou-se viral, escrevem Colomina e Wigley. “A palavra design está em toda a parte. Aparece em todas as situações. Não conhece limites.” Em Are We Human?, descrevem a sua multiplicação: “desde o momento em que acordamos pela manhã, somos envolvidos pelo design das nossas roupas, dos nossos sapatos, da maquilhagem que colocamos, dos nossos óculos, dos telemóveis, dos móveis, dos eletrodomésticos, dos computadores e até da pintura das paredes que nos cercam”. Das bienais e semanas do design aos bairros e capitais do design, da “felicidade por design”, à “diplomacia por design” e ao “design para a justiça social”. O design thinking sobe ao púlpito e converte-se num modelo hegemônico, “o cargo de Chief Design Officer assumiu recentemente o mesmo estatuto que o de Chief Financial Officer”. A disciplina tornou-se assim perigosamente bem-sucedida.2

    Reparo que esta expansão vive da lógica do consumo, é consequência do capitalismo efervescente em que a contemporaneidade habita. Os exemplos enumerados no parágrafo anterior falam de marcas, experiências, interfaces, objetos e software, todos eles têm o capitalismo a puxar os fios e todos assentam no pressuposto de que o design é sempre entendido como uma coisa boa. O bom design está em todo o lado. Ele serve o cliente e serve o mercado.

    É neste ponto que me interessa uma frase que vai contra a corrente:
    “(…) pode até ser necessário que o designer seja ‘irresponsável’, porque precisamos de mundos mais lúdicos e habitáveis que as antigas formas de produção estão mal preparadas para criar.” 3
    Se a responsabilidade do designer é ser obediente e produzir para esta entidade que nos controla, a irresponsabilidade passa a ser uma hipótese séria para subverter o estado atual do design.


    O que é uma disciplina?


    Comecemos pelo princípio. O que é uma disciplina? O dicionário diz nos:
    “1.Conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades”,
    “2.Obediência a um conjunto de regras”
    “3.Submissão e obediência à autoridade”
    “4. Área do conhecimento que é objeto de estudo”.
    4
    Todas estas definições apontam para um campo com limites reconhecidos por uma comunidade. Foucault, em Vigiar e Punir, teoriza-a como um conjunto de procedimentos que produz corpos dóceis e paralelamente úteis/obedientes, moldados por normas e vigilância.5 Com ambas as definições entendemos que, cabe à disciplina estipular uma relação de poder – quem tem a voz, o que é relevante e o que fica fora de campo. Disciplina é, portanto, território e norma.
    Indisciplina, por consequência, pode ser duas coisas. Sair do território ou desobedecer à norma.

    Design Indisciplinado

    Resta dizer o que entendo portanto por Undisciplined Design. A designação vive da vontade de escapar à norma pré estabelecida, um momento anarquista6, este pode ser observado  por exemplo na recusa em trabalhar exclusivamente para interesses comerciais. O design viral concebe versões hiper eficazes de si próprio em resposta ao capitalismo. O indisciplinado vai rumo á direção oposta, ao perguntar se efetivamente esse mundo é a única realidade possível. Para a testar, aceita fazer coisas que parecem absurdas, irónicas, inúteis ou deslocadas, porque é nesse desvio que encontra o potencial, uma espécie de luz ao fundo do túnel. Se as velhas formas de produção não conseguem “criar mundos mais lúdicos e habitáveis”7, talvez só a imaginação o consiga. E talvez seja essa a ferramenta de eleição que o designer precisa de reclamar.

    Anthony Dunne e Fiona Raby são um caso claro. Trabalham dentro do design, mas os objetos que fazem não respondem à urgência do mercado e, na maioria dos casos, nem sequer têm um uso real no mundo em que vivemos. O design especulativo serve para criar fricção, para nos tirar da anestesia que o design polido tem administrado e nos fazer formular perguntas, para estranhar aquilo que damos como evidente.8 Deparamo-nos com robôs domésticos cuja função é precisamente não ter utilidade, o design gráfico de um Estado que não existe, objetos que adivinham um futuro apocalíptico oou conceitos biomédicos para que mulheres gerem espécies de animais ameaçados. Estabeleço até a comparação entre as obras destes designers e aquilo que, como diria a cultura pop, é um enredo digno de um episódio de Black Mirror9. Por isso, considero o design especulativo um design indisciplinad sim, uma vez que ultrapassa a norma. Nas palavras dos Metahaven, “o design especulativo é um antídoto lúdico para o estado de espírito ansioso do design contemporâneo”10. 

    A indisciplina é esta uma maneira de experimentar a liberdade e a anarquia, uma oportunidade para criticar o nosso mundo e habitar num outro, um mundo sem regras onde as ideias, as opiniões circulam desimpedidamente.
    “The “proposal” of speculative design is (…) making life more lively” 11

    Anthony Dunne, Fiona Raby, Technological Dreams Series 12

    Sei que me estou a debruçar bastante sobre o design especulativo e não quero reduzir tudo a uma equação em que o único design indisciplinado é o especulativo. Dou por isso um exemplo de Anja Kaiser, designer de Leipzig, cujo o seu trabalho explora mais o campo do design crítico inclinado para a prespetiva feminista. Na exposição Undisciplined Toolkit, e no projeto Glossary of Undisciplined Design, a designer questona o que acontece quando o domínio das regras é desaprendido propositadamente. Ou seja, em vez de projetar futuros, Kaiser questiona as normas através de composições que não se deixam ler de uma só maneira, da criação de atrito visual nos seus projetos para dificultar a leitura e da escolha de clientes segundo critérios políticos. É aí que o seu trabalho é indisciplinado, como um Cavalo de Troia, Kaiser desmonta o design desde o seu interior questionando como se faz design.

    Anja Kaiser: Undisciplined Toolkit. 13

    Concluo que um indisciplinado é aquele que trabalha nas margens e não no centro: o inconformável que procura ir mais além. O design indisciplinado celebra os pioneiros do inconformismo e dá voz aos contemporâneos que trabalham para desmontar e ultrapassar a historiografia do design.14
    Comecei este pequeno artigo por perguntar o que resta de uma disciplina quando tudo é design, quando toda ela vive das condições da indústria neoliberal. A resposta que encontro é abanar o status quo em que todos parecemos estar, para questionar e para ser UNDISCIPLINED.



    1 Bremner C, Rodgers P. Design without Discipline. Design Issues. 2013 jul; pp:9. Disponivel em: https://doi.org/10.1162/DESI_a_00217
    2 Colomina B, Wigley M. The plastic human. In: Are we human? Notes on an archaeology of design. Zurique: Lars Müller Publishers; 2018.Tradução própria.
    3 Bremner C, Rodgers P. Design without discipline. Design Issues. 2013 jul; pp:11. Disponível em: https://doi.org/10.1162/DESI_a_00217. Tradução própria.
    4 Disciplina. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [Internet]. Lisboa: Priberam Informática; 2008-2026. Disponível em: priberam.org
    5 OPENAI. Claude: modelo de linguagem de inteligência artificial: OpenAI, 2026. Disponível em: https://chat.openai.com/. Acesso em: 8 out. 2026.
    6 Mitchell WJT. Interdisciplinarity and visual culture. Art Bull. 1995 dez; pp:541. Tradução própria.
    7 Bremner C, Rodgers P. Design without discipline. Design Issues. 2013 jul; pp:11. Disponível em: https://doi.org/10.1162/DESI_a_00217
    8 Dunne A, Raby F. Speculative everything: design, fiction, and social dreaming. Cambridge (MA): MIT Press; 2013.
    9 Hanson K. Black Mirror and design fiction [Internet]. 2016 out. Disponível em: https://killeenhanson.com/projects/blackmirror
    10 Kruk V, van der Velden D (Metahaven). Design’s recent fear of imagination. In: Kruk V, van der Velden D. 10 notes on speculative design. Amesterdão. Tradução própria.
    11 Kruk V, van der Velden D (Metahaven). Imaginative counterculture. In: Kruk V, van der Velden D. 10 notes on speculative design. Amesterdão. Tradução própria.
    12 Dunne A, Raby F, Dunne & Raby. Robot 1 from the Technological Dreams Series: no 1, Robots project (Model) [imagens utilizadas no artigo]. 2007. In: Design and the Elastic Mind [Internet]. Nova Iorque: The Museum of Modern Art. Disponível em: https://www.moma.org/audio/playlist/234/3004
    13 Kaiser A. Undisciplined Toolkit (imagens utilizadas no artigo). In: Ong J. Anja Kaiser challenges the design industry’s neoliberal working conditions to shake up the status quo [Internet]. London: It’s Nice That; 2020 abr 16. Disponível em: https://www.itsnicethat.com/articles/anja-kaiser-undisciplined-toolkit-graphic-design-160420
    14 Symposium: Glossary of Undisciplined Design [Internet]. Leipzig: Galerie für Zeitgenössische Kunst Leipzig; 2020. Disponível em: https://gfzk.de/en/calendardate/symposium-glossary-of-undisciplined-design/