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  • Quem pode ser designer? Poder, pluralidade e pedagogia feminista

    A discussão sobre o que é ou o que pode ser design e que qualidades atribuímos a esta disciplina é persistente e um tema sem resposta definida. No entanto, outra forma de colocar esta questão pode revelar perspectivas alternativas. Quem pode ser designer (ou a quem podemos chamar designer)? Quem se vê representado na história do design e quais são as estruturas de poder que a definem?

    A prática do design ocidental, tanto a nível profissional como académico, tem vindo a imaginar-se como única. De acordo com a sua herança modernista, mantém pretensões de universalidade, de neutralidade e o mito do “bom design”, baseando-se na visão limitada dos protagonistas da sua história: maioritariamente homens brancos, do Norte Global [1]. Desta forma, realidades alternativas de género, etnia, religião e classe social são ignoradas na prática e na sua pedagogia.

    The flexibility of design often leads to popular misunderstanding and clouds efforts to understand its nature (..). One could go further and say that the history of design history is a record of the design historians’ views regarding what they conceive to be the subject matter of design. [2]

    Esta hegemonia histórica influencia quem se revê na disciplina e é perpetuada pelas instituições de ensino, onde é reforçado o estereótipo de um “bom estudante de design” que pratica “bom design” e que no futuro será premiado pela reprodução destes mesmos ideais [3]. A prática reduzida a um ciclo constante das mesmas ideias e dos mesmos círculos demográficos acaba por dissuadir indivíduos com diferentes contextos sociais e culturais de se considerarem parte desta.

    Figuras 1 e 2: Imperfect Index, uma publicação dedicada à desconstrução dos cânones desatualizados do design gráfico.

    Ao questionar a sua posição na disciplina do design, Claudia Marina coloca a questão que suscitou esta reflexão – “At what point did you feel comfortable calling yourself a designer? (…) If I can successfully convince others that I am, do the long-term implications of that acceptance destabilize the institution of design and render it meaningless?” [4] Ao questionar os interesses de exclusividade que envolvem a “instituição do design”, questiona também as estruturas de poder que a definem e quem beneficiam.

    Ramia Mazé propõe uma análise através de modalidades críticas feministas como modo de questionar, nomear e desestabilizar as convenções do passado [3]. Apenas ao analisar o passado do design será possível projetar futuros diferentes, mais inclusivos e plurais – design “otherwise”.

    O artigo “Made in Patriarchy”, publicado em 1986, da investigadora Cheryl Buckley é um dos primeiros e mais influentes textos a fazer este mesmo exercício, investigando o papel da mulher na história do design, nomeadamente, a sua omissão. Buckley afirma que os códigos que constituem o design são produto de uma sociedade industrial e capitalista e apenas consideram objetos criados neste contexto. Deste modo, objetos produzidos pela mulher (por exemplo os bordados) no ambiente familiar e para utilização da família eram desvalorizados enquanto design [5]. A crítica centra-se na história do design e na forma como esta é contada, não tendo em conta a realidade paralela da mulher no passado e o condicionamento da sua capacidade de produção.

    “To date, design historians have esteemed more highly and deemed more worthy of analysis the creators of mass-produced objects. Subsequently, they have argued that “design history is a study of mass-produced objects.” Feminists have challenged this definition as prejudging the nature of design by emphasizing only one mode of production and thereby excluding craft production.” [5]

    A análise de Cheryl Buckley foi um primeiro passo na procura de uma prática de design mais plural e inclusiva. O primeiro artigo da autora peca apenas pelo alheamento ao feminismo enquanto movimento interseccional, capaz de incluir várias realidades, algo sobre que a mesma reflete na publicação de “Made in patriarchy II” [6], publicado em 2020. No entanto, a metodologia do mesmo é um fundamento essencial para as modalidades críticas feministas – ao questionar a história do design é possível produzir uma nova realidade e uma alternativa à narrativa patriarcal.

    Figuras 3, 4 e 5: Revista Modas & Bordados, nº 1617, fevereiro 1943.

    Neste contexto, é importante salientar que práticas de design feministas não pretendem repensar a disciplina através do ponto de vista da mulher, mas contrariar sistemas opressivos através da exploração da intersecção entre género, raça, classe, capacidade e outras identidades situadas [7]. As instituições são locais onde estas práticas podem ser aplicadas diretamente através da adoção de estratégias pedagógicas alternativas, contrariando o sistema a partir dos seus centros. Ao subverter modos de pensar a sala de aula, o poder das suas relações e a construção de currículos expansivos e diversos.

    Figura 6: Power Tools para uma pedagogia feminista em design, uma coleção de materiais de workshops que aplicam práticas pedagógicas feministas de design no contexto da FBAUL. Dissertação de Mestrado de Raquel Gomes, 2024, mestrado em design de comunicação/FBAUL.

    “Feminist theory rejects the notion of a single way of doing or thinking. (…) Universalism can assert only similarities; therefore, it marginalizes what is seen as dissimilar. Feminism, in contrast, does not require the construction of a single story that represents one truth. Feminist ways of understanding the world elicit a plurality of negotiated meanings.” [8]

    A construção de uma pedagogia sem pretensões de universalidade e de neutralidade, colaborativa e diversa é uma ferramenta poderosa para a mudança do futuro da disciplina. Ao quebrar o ciclo vicioso de “bom design” e de “bons alunos” que rege nas instituições, será finalmente possível imaginar uma prática de design para diferentes realidades, inclusiva da pluralidade do mundo – praticar design “otherwise”.

    Notas:

    [1] Mareis, C. & Paim, N. (2021). “Design Struggles: An Attempt to Imagine Design Otherwise”. Mareis, C. & Paim, N. (eds.), Design Struggles: Intersecting Histories, Pedagogies, and Perspectives. Amsterdão: Valiz

    [2] Buchanan, R (1992). “Wicked Problems in Design Thinking”, Design Issues 8, no. 2

    [3] Mazé, R. (2021). “Design Education Futures: Reflections on Feminist Modes and Politics”. Mareis, C. & Paim, N. (eds.), Design Struggles: Intersecting Histories, Pedagogies, and Perspectives. Amsterdão: Valiz.

    [4] Marina, C. (2023). “On Calling Yourself a Designer”. Place, A. (ed.), Feminist Designer: On the Personal and the Political in Design, Cambridge: The MIT Press.

    [5] Buckley, C. (1986). “Made in Patriarchy: Toward a Feminist Analysis of Women and Design”. Porto: Bikini Books e Clube do Livro do Design.

    [6] Buckley, C. (2020). “Made in Patriarchy II: Researching (or Re-searching) Women and Design”. Porto: Bikini Books e Clube do Livro do Design.

    [7] Place, A. (2023). “On the personal and the political in design”. Place, A. (ed.), Feminist Designer: On the Personal and the Political in Design. Cambridge: The MIT Press.

    [8] Place, A. (2023). “On plurality”. Place, A. (ed.), Feminist Designer: On the Personal and the Political in Design. Cambridge: The MIT Press.