Ricardo Paulo

Com a democratização da internet houve uma multiplicação das possibilidades de expressão visual. Pode este advento da multiplicação estar a contribuir para uma uniformização castradora das linguagens do design(er) de comunicação?
No início dos anos 90, a expansão da World Wide Web facilitou o acesso a páginas web e a partilha de informação. Com o desenvolvimento da Web 2.0, nos anos 2000, a Internet tornou-se progressivamente um espaço de interação e participação, permitindo aos utilizadores não só consumir conteúdos, mas também produzir os mesmos. No design esta transformação contribuiu para quebrar a fronteira entre criador e utilizador. Como refere Blauvelt (2008) [1], a emergência das redes sociais, da colaboração open source e da interatividade contribuiu para transformar os processos e os papéis envolvidos na prática do design. O designer deixa de se centrar exclusivamente na criação de objetos finais e passa a conceber sistemas e estruturas abertas que permitem ao utilizador participar no processo criativo, assumindo também um papel de designer. Manovich (2001) [2], por sua vez, analisa a forma como os novos media aproximam arte e design e permitem que os designers explorem novas linguagens, padrões e convenções visuais. Neste contexto, por volta de 2008, surge o conceito de Pós-Internet, associado a Olson (2008) [3], que remete para uma condição cultural em que a Internet deixa de ser apenas uma ferramenta ou um espaço de publicação e passa a influenciar a produção artística, a cultura visual e a circulação de imagens, tanto dentro como fora da internet. No design de comunicação, esta influência manifesta-se na apropriação e adaptação de referências e linguagens visuais digitais a diferentes suportes.
Os meios digitais transformaram profundamente a linguagem do design de comunicação, introduzindo novas formas de criar, interpretar e até de difundir as mensagens. A estética das interfaces, a utilização de memes e glitches, a tipografia experimental e a sobreposição de elementos contribuíram para a construção de um código visual contemporâneo, no qual a fragmentação, a repetição e a sobreposição ampliam as possibilidades de composição gráfica ao mesmo tempo que questionam os modelos tradicionais.
Segundo Manovich (2001) [4], o ecrã não funciona apenas como suporte de apresentação da mensagem, mas também como meio de interação e manipulação. Elementos como barras de navegação, cursores, ícones e janelas, originalmente concebidos para desempenhar funções operacionais, passaram a integrar composições gráficas enquanto recursos expressivos. Esta transformação é igualmente abordada em Information as an Aesthetic Event, onde Manovich [5] explora a dimensão estética da informação e dos ambientes digitais. Simultaneamente, as falhas tecnológicas passaram a ser exploradas como recursos visuais. No projeto Glitch Digital Arts Festival, a distorção tipográfica transforma o erro num elemento estético, enquanto, em Scanmania, de Rubén Montero, a manipulação das letras explora a fragmentação e os limites da legibilidade. Estes exemplos mostram como a imperfeição, o erro e a instabilidade podem dar origem a novas formas de expressão, sem que a composição em si tenha de seguir regras rígidas de clareza e controlo.


A linguagem visual contemporânea caracteriza-se também pela apropriação de imagens e códigos preexistentes, cujo o significado pode ser alterado através da sua utilização num novo contexto. O projeto MyDavidCameron exemplifica este processo ao demonstrar como um cartaz político, após modificado e partilhado na internet, com o intuito de produzir uma mensagem satírica. A estrutura gráfica original manteve-se identificável, mas a alteração dos seus elementos permitiu construir novos significados. Desta forma, o design de comunicação articula a criação gráfica com a reutilização de referências visuais existentes. Este novo ciclo de apropriação e ressignificação de elementos, onde novas linguagens, referências e níveis de informação se cruzam tornam, a comunicação visual contemporânea mais dinâmica.


A necessidade de difundir a mensagem em diferentes tipos de suportes digitais e fisícos altera a forma como o design é concebido exigindo assim do designer novas soluções visuais capazes de se adaptar a diferentes formatos, mas também a diferentes contextos de utilização. Esta transformação relaciona-se com os conceitos de modularidade e variabilidade de Lev Manovich [6], segundo os quais os elementos digitais podem ser reorganizados e modificados sem perder necessariamente a sua identidade. Por exemplo, uma identidade visual pode assumir diferentes configurações num website, numa aplicação ou numa publicação nas redes sociais, mantendo elementos gráficos que permitem o seu reconhecimento. É o caso da Spotify, cuja identidade visual se adapta a diferentes plataformas, mantendo elementos como o logótipo, a cor e a tipografia, que permitem reconhecer a marca mesmo quando a sua apresentação visual varia.


A utilização de ferramentas digitais, modelos predefinidos e bibliotecas de recursos levanta questões relacionadas com a autenticidade e a originalidade. Embora estes recursos facilitem o processo criativo, tornando-o mais rico na maioria das vezes, também podem levar à criação de linguagens visuais repetitivas e semelhantes entre si. O desafio do designer é, portanto, conciliar a utilização destes recursos e técnicas com a construção de uma linguagem visual própria, atribuindo novos significados aos elementos utilizados de forma crítica e consciente. É esta capacidade de reinterpretar e reutilizar os recursos disponíveis, e de lhes dar novos significados que contribui para tornar a linguagem visual única. Porém, será este um processo assim tão controlado? Nem sempre. Os meios digitais permitem que o receptor seja também emissor, podendo transmitir a mensagem tal como foi criada ou alterá-la, atribuindo-lhe novos significados, que podem ou não surgir de um novo contexto. Os memes são um exemplo de como uma imagem pode ser alterada e reutilizada para transmitir diferentes mensagens, como acontece com o Distracted Boyfriend, cuja interpretação muda consoante as legendas e o contexto.
A democratização da Internet ampliou as possibilidades de criação, transformação e partilha de linguagens visuais, oferecendo ao designer de comunicação novos recursos e formas de expressão. No entanto, a crescente influência dos meios digitais também contribui para a criação de padrões visuais, visíveis na reprodução de formas, elementos gráficos e convenções digitais, tanto na Internet como fora dela. Esta influência pode ser observada, por exemplo, na utilização de elementos inspirados nas interfaces digitais, como botões, formulários e etiquetas, aplicados a objetos físicos, como cartazes e peças de vestuário. Embora estes recursos possam enriquecer o processo criativo, a sua utilização excessiva pode limitar a originalidade e tornar as mensagens dependentes de tendências visuais. O desafio para o design(er) não está, portanto, em rejeitar os meios digitais, porque está refém deles, mas em compreender como utilizar e reinterpretar os recursos fornecidos, de forma crítica e consciente, preservando a autonomia criativa.
[1] Blauvelt, A. (2008, 3 de novembro). Towards relational design. Design Observer.
[2] Manovich, L. (2001). The language of new media. MIT Press.
[3] Olson, M. (2011). Postinternet: Art after the internet. Foam Magazine, (29), 59–63.
[4] Manovich, L. (2001). The language of new media. MIT Press.
[5] Manovich, L. (2007). Information as an aesthetic event.
[6] Manovich, L. (2001). The language of new media. MIT Press.







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